MIOARA HERESCU
TRAVESSIA
A historia do casal que atravessou a
Europa a pé
Esta é a história da minha vida, uma pessoa comum que passou por situa- ções às vezes cômicas mas, na maioria, muito sérias e às vezes perigosas.
Muitos amigos aos quais eu relatei parte destes acontecimentos me
aconselharam a escrever um livro que talvez faça meus netos e atualmente, meus
bisnetos entender que a pessoa pode passar por problemas muito sérios e com
tudo isto não ficar amargurada, nem com pena de si mesma; muito pelo contrário,
conseguir relembrar com uma dose de ironia os momentos mais trágicos,
transformando-os em cenas de verdadeira comicidade.
Voltando a quilometragem para trás, cheguei no ano de 1927 (eu com
dois anos), quando a minha nítida lembrança é estar sentada num degrau do
quarto de meus pais comendo um ovo duro. Será esta a explicação de meu atual
colesterol?
Nasci em Ploesti uma cidade na zona petrolífera da Romênia, uma
vida muito cheia de lembranças boas.
Dizem que na idade avançada a gente se lembra melhor do que comeu
aos dois anos do que jantou ontem.
É verdade, me lembro até do nome da rua e da empregada Ana que
ficou muito tempo conosco.
A casa grande com jardim enorme com muitas flores, árvores e ratos
que eu mesma abria a ratoeira, pegava o rato pelo rabo e o balançando
orgulhosamente mostrava para minha mãe que só faltava desmaiar.
Alguns anos atrás (quero dizer em 2007) apareceu um ratinho aqui
em casa e só me faltou subir em cima da mesa. Cheguei à conclusão que a coragem
não aumenta com a idade.
Deduzo que eu era uma criança muito curiosa tanto que aos cinco ou
seis anos, ganhei uma sandália linda e até hoje me lembro dela.
Provavelmente na minha ingenuidade e curiosa pelas qualidades do
mundo, no dia seguinte, botei ela na porta da rua. Óbvio que na hora em que
minha mãe perguntou por ela, respondi com toda a naturalidade que queria ver se
alguém a levava. E levou...
Com nove anos nos mudamos para Bucareste onde fiquei até os vinte
e um anos quando, junto com meu marido Oscar (lembra o programa de televisão?),
enfrentamos os dois anos mais perturbadores da nossa vida.
Ainda em Bucareste entre quatorze e dezoito anos aconteceu a
segunda guerra mundial. Enfrentávamos bombardeios dia e noite sem saber se no
dia seguinte estaríamos vivos ou mortos.
Foi uma época de ouro para os restaurantes pois como os
bombardeiros de dia começavam às 9:00 horas da manhã, nós saíamos dos abrigos
vivos e felizes por mais um dia de vida e íamos direto para os restaurantes
para festejar.
Aos dezesseis anos conheci, em uma piscina, um gato loiro de olhos
azuis que viria três anos mais tarde a ser meu marido e companheiro das
aventuras que virão a acontecer.
Em 1945 acabou a guerra e com isto os alemães que, junto com os
romenos, lutaram contra a Rússia, foram embora e com isto o nosso terror em que
vivíamos os últimos quatro anos com medo do campo de concentração, acabou.
O povo romeno achou que, recebendo os russos com flores e música,
teriam um futuro calmo e feliz. Não foi nada disto, ao contrário, vieram com
muita raiva e sentimentos de vingança. Andavam atirando em pessoas na rua, sem
motivo e sem escolha.
A parte cômica é que o exército deles vinha de quarenta anos de
terrorismo e não sabiam nada do mundo. Desinformados, não sabiam nem como se
vestir.
As russas loiras lindas tiravam o uniforme e se vestiam com longas
camisolas de cetim, cheias de renda, para andar normalmente na rua.
Os estoques de sapatos de verniz preto com solas de papelão que
eram vendidos normalmente para calçar os mortos, fizeram a festa dos soldados
russos.
Nunca soube o que aconteceu na primeira chuva, nem o destino das
lojas que os venderam.
Após algum tempo em que todos achavam que as coisas iriam se
normalizar, começaram os verdadeiros problemas.
Todos que na vida não eram operários ou que os pais trabalhavam
como executivos ou coisa parecida eram considerados um perigo para o mundo
socialista.
Até que um dia um amigo nosso que tinha acesso a informações
sigilosas nos telefonou avisando que era questão de dias para prender a minha
família. Não eram propriamente processos aonde se podia se defender ou dar
explicações. As sanções, acho eu, dependiam mais do humor dos que julgavam cada
caso naquele dia.
Fazendo
um parêntese, no dia 18 de fevereiro de 1945 eu e meu amor finalmente e
corajosamente resolvemos nos casar apesar das restrições como depois das 20:00
horas ser proibido andar na rua ou ter em casa mais de seis pessoas. Devia-se
pedir uma autorização para eliminar o que eles achavam que poderia ser uma
reunião com fins políticos.
Era um
inverno com frio terrível, não existiam carros a disposição. Então não me
lembro como e quem, com altas relações políticas arrumou para nós, os noivos,
um carro preto dirigido por um soldado russo.
Hoje me
pergunto: A coragem que nós tivemos de entrar no tal do carrão, sem saber se
nós iríamos à igreja ou ao cemitério. Pelo jeito era um russo bonzinho, senão
quem escreveria todas estas lembranças?
Fechando
o parêntese, volto a outubro de 1947 depois do telefonema fatídico.
Praticamente em vinte e quatro horas resolvemos deixar o país, coisa que era
bastante comum na época, entre pessoas que não possuíam um passado
confiável com a atual conjuntura.
Éramos
casados a pouco mais de dois anos com o apartamentozinho aconchegadinho, bem
arrumadinho e, como resultado, saímos pela porta cada um com uma maletinha
pequena com uma muda de roupa e um sapato de reserva. Era tudo que se podia
carregar na travessia da fronteira que era durante a noite e a pé pelos campos
e sem saber se era durante duas ou dez horas.
Procuramos
em uma cidade perto da fronteira uma pessoa de confiança pois, devido a muita
procura de gente que queria fugir, se criou uma turma de bandidos que, ao invés
de atravessar, matavam as pessoas achando que tinham valores ou jóias pelo
corpo.
No fim
tivemos sorte. Sorte esta paga com uma quantia considerável e, às duas horas da
manhã do dia 2 de novembro de 1947, entramos, pelas próprias pernas e
tropeçando em tudo que se podia através do campo no escuro como dizia, com as
maletas na mão, na Hungria aonde pegamos um trem para ir à Budapeste.
Nós tínhamos um endereço seguro de uma pensão onde tinham mais
refugiados como nós. Mas havia um certo perigo pois estávamos na zona russa e
se descobrissem nossa identidade éramos mandados de volta sem explicações.
À primeira
saída na rua, todos mudos com medo de falar romeno, paramos na frente de uma
loja de “delicatessen”. Atrás de vitrine tinham dez tipos de presuntos e
salames, fora os queijos, licores e vinhos; parecia o paraíso de um “gourmet”.
E o
cúmulo dos cúmulos foi uma loja aonde eu enxerguei uma coisa que na hora me
pareceu uma jóia, um par de meias de “nylon” que, no momento, era o máximo que
eu queria da vida.
Do resto correu tudo normalmente e, na semana seguinte,
organizaram nossa saída de Budapeste por uma associação que cuidava de
refugiados chamados políticos. Passamos o resto dos dias cheirando e olhando
coisas que pareciam de outro mundo.
Íamos para Viena na Áustria e, na noite fatídica do transporte,
entramos em um caminhão e ficamos sentados no chão com a maletinha no colo e a
lona do caminhão diretamente sobre nossas cabeças.
Era um grupo muito grande que foi distribuído em três caminhões.
Os dois primeiros passaram pelo ponto crítico sem problemas. O nosso foi
parado, adivinhou aonde? Cochichando e espiando descobrimos com desespero que
era na sede do partido comunista húngaro.
Passamos por momentos de angústia sem saber o que o destino nos
aprontava.
Meu marido era do tipo que a preocupação o deixava com fome. Ele
partiu um pedaço de pão preto duro, abriu uma lata de conserva e começou
calmamente a comer. Do outro meu lado estava sentado um senhor lindo de cabelos
brancos, todo nervoso com a situação e falou em voz baixa para o meu marido:
- Como nesta hora de desespero o senhor só pensa em comer?
Ao que meu marido respondeu, no mesmo tom de voz e com um olhar
assassino:
- Se não calar a boca torço o seu pescoço.
Este
senhor Mário, que vou mencionar muitas vezes, veio a ser um dos nossos melhores
amigos e fizemos praticamente toda a emigração juntos.
Apesar de
ter deixado na Romênia mulher e filho, acabou se envolvendo, entre outras
aventuras tipo James Bond, com uma condessa italiana que jogou ele de cueca na
rua, por o ter pego com outra pessoa.
No fim, libertaram nosso
caminhão, pois estava nele um contrabandista que aproveitava e se juntava como
refugiado, mas com uma lanterna super potente e, para nossa felicidade,
reconheceram e tiraram-no da nossa companhia.
Quando falei da noite fatídica na
saída de Budapeste, apesar de terem nos informado que estava tudo organizado
com guardas de fronteira muito bem pagos para isto, a travessia foi feita
por outro lugar e levou das 11:00 horas da noite até no dia seguinte às 10:00
horas da manhã.
Quando chegamos à Viena, eu fui diretamente
para um Pronto Socorro com um verdadeiro buraco no calcanhar. Imaginem
quase doze horas de andar, em pleno campo, com os buracos, pedaços de árvores
cortadas e muitas outras coisas para tropeçar.
Na época Viena era dividida em
quatro setores: russo, americano, inglês e francês. Nós fomos colocados numa
escola que tinha sido adaptada para abrigar bastante gente. Por sorte ou
por azar, me deram uma cama de um beliche; aliás, todas as salas tinham
beliches até o teto. Todo o dia de manhã, quando eu acordava, tinha balançando
quase tocando minha cabeça um par de pés não muito bem lavados.
Aliás, banhos em novembro, com
frio, eram com água gelada. Eu, como sou friorenta por natureza, resolvi que o
primeiro banho ia ser não sei e nem onde, mas com água fria não.
Nossa escola era na zona
americana mas alguém descobriu que na zona russa havia um verdadeiro palácio de
banhos.
De novo, mudos, saímos da escola
rumo ao paraíso dos banhos onde ficamos o dia inteiro aproveitando os chuveiros
e as piscinas com água quente. As necessidades de uma pessoa, dependendo do
momento, criam uma situação de felicidade das coisas mais simples que
normalmente passam desapercebidas no dia-a-dia.
Falando em tragicômico, a saída
de Viena para Salzburgo foi uma aventura única, até para quem viveu ela. Como
sempre, um caminhão à noite nos deixou perto de uma estação de trem só que a
estação estava embaixo e nós estávamos em cima de um morro. Não era o Everest,
mas tinha bastante altura. Por sorte ou por azar, naquele dia não estava muito
frio, de modo que a neve tinha derretido e se transformou num lençol de lama
considerável.
O morro, como todos os morros,
estava cheio de árvores grandes, pequenas e muitos arbustos. Com toda nossa
calma e energia tentamos descer pelas próprias pernas.
Acabamos todos de traseiro no
chão morrendo de rir. A conclusão foi que o único meio era continuar com a
bunda no chão, escorregando na lama, em cima do casaco de camurça, com a
bendita maletinha no colo. Quando
tomávamos muita velocidade, o único meio de parar, era escolher uma árvore,
abrir as pernas e procurar proteger as partes importantes.
Dá para imaginar a situação?
Contudo isto e com a idade que a
gente estava, até hoje me pergunto como cheguei lá em baixo, com a calcinha
seca de tanto que a gente ria.
Chegando na estação, achamos que
o problema estava resolvido; faltava pegar o trem para Salzburgo. Naquela
época, em qualquer lugar da Europa aonde tinha russos, quem como nós não tinha
nenhuma identidade eram mandados de volta para a Romênia e premiados com vinte
e cinco anos de prisão.
A notícia na estação de trem
era que passaríamos pelo controle dos soviéticos. Não me lembro como
resolvemos a situação, só sei que chegamos livres ao destino.
Com o último dinheirinho que
tínhamos, fomos para um hotelzinho onde ficamos uma semana visitando obras e
prédios históricos, aproveitando a beleza do lugar.
Estava conosco o amigo Mário que
mencionei anteriormente, aventureiro até o último dia. Às oito da noite quando
chegou o guia que ia nos levar para a Alemanha, nosso companheiro foi comprar
um maço de cigarros.
Encontramos com ele dois meses
mais tarde em Paris.
Naturalmente, como sempre, já
acostumados a passar a fronteira a pé e pelos campos, não tivemos, por
felicidade, nenhum contra-tempo. Sem o entusiasmo dos vinte e dois anos, aquilo
que na época era um risco permanente, hoje com a maturidade, para não dizer
idade, não deixa de ter um lado cômico.
Chegamos a Munique de manhã e fomos encaminhados para um campo de
refugiados onde passamos três meses esperando melhorar o frio em Paris que era
nosso próximo destino e o final das aventuras.
No campo tinha uma cozinha; não vou ignorar a qualidade
da comida, mas durante três meses comemos guisado com macarrão. Este era o
almoço. O jantar era por nossa conta e lembramos o tempo todo o ditado que a
fome é o melhor cozinheiro.
Muitas semanas, por falta de dinheiro, fazíamos um belo sanduíche
de pão preto duro com açúcar em cima.
Não existe nada na vida mais importante do que o impulso e a
juventude de ir para frente esperando, achar um dia, aquilo que nos fazia
enfrentar aquela situação.
Nos deram uma sala grande com oito camas. Eram sete homens e a
Mioara. Apesar de tudo, foi uma época bem divertida. Os homens trouxeram para
sala um piano de cauda e até hoje não sei como ninguém nos acusou de roubo.
Um do grupo tocava jazz e o tempo passava de maneira bastante
animada.
No campo tinha um clube mantido pelos mais afortunados e uma noite
nós fomos lá para ouvir música e ver a animação. Como ninguém de nós tinha
dinheiro, aqui vou dar uma explicação. Na saída da Romênia se pegavam a gente
com dinheiro eram vinte e cinco anos de prisão, de modo que nós levamos
escondidas algumas jóias que tínhamos vendido pelo caminho.
Voltando na noite no clube, os meninos pediram cada um uma
cerveja. A tal da cerveja vinha num barril que dava para vários dias. O copo da
cerveja foi negado por causa do vil metal.
Na mesma noite, aliás, de madrugada, os meninos deram um jeito de
entrar no clube e cada um fez xixi no barril. Na noite seguinte, naturalmente,
os primeiros a entrarem no clube fomos nós para não perdermos os comentários
ansiosamente esperados. Os primeiros a tomar acharam que tinha um gosto
diferente e até cogitaram se não entregaram um barril velho.
Estes momentos que para um leitor podem parecer sem graça até
chocante, para nós que passávamos uma época muito difícil tinha um gostinho de
vingança e ao mesmo tempo, uma injeção de esperança em dias melhores.
Finalmente, chegou o mês de março e achando que o frio tinha
acabado, começamos a procurar um meio de ir para a França.
Apareceu um conhecido que fazia contrabando e prometendo levar
para ele duas malas com a muamba, dizia conhecer a fronteira com a palma da
mão.
A travessia levou, pelo menos, quarenta e oito horas sendo que a
primeira cidadezinha que chegamos na França, naturalmente e como sempre, a pé,
cansados, com fome, sono e preocupados com a falta de conhecimento da fronteira
do nosso conhecido.
Entramos num pequeno restaurante da estação e os quatro desabamos
em uma mesa. Com todo o cuidado de escolher uma época menos fria, naquelas
noites estava muito gelado com neve na altura dos joelhos. Dentro do
restaurante estava quentinho com um vago cheiro de perfume.
Alguns minutos mais tarde chegou na nossa mesa um garçom com
quatro canecas de “consommé”. Nós falamos que não tínhamos encomendado e que
não tínhamos dinheiro para pagar. O garçom respondeu que pessoas de outra mesa
tinham pedido aquilo para nós.
Até hoje imagino nosso aspecto depois de passar frio, fome e sono.
Foi o fato que impressionou uns estranhos a nos oferecerem uma sopinha quente
que na hora nos pareceu enviada por Deus.
A verdade
é que aquele era um lugar aonde passavam muitos refugiados e aquele pessoal até
hoje devem lembrar o que os motivou àquele gesto de caridade, posso dizer.
Levantei e fui agradecer e, como uma pessoa muito forte que eu achava que era,
voltei para minha mesa, botei a cabeça no braço e chorei, chorei e chorei.
Pelas onze horas da noite, com toda a confiança e afirmativa de
nosso amigo que a fronteira não tinha segredos para ele, paramos em um
acampamento militar aonde tinha um cartaz enorme com ameaça de vida para quem
entrasse lá.
O
acampamento era perto de uma estação de trem, aonde a gente devia pegar a meia
noite um trem para Paris. Procurando no escuro e com neve alta, esgotados e com
medo pelas nossas vidas, vimos de longe o trem passar.
Sair do campo estava se tornando um drama. Pelas duas horas da
manhã, apareceu de longe um grupo de pessoas se aproximando. Mandei os três
amigos se esconderem e comecei a chamar o grupo que ficou pasmo quando me viu
sozinha de madrugada pedindo ajuda. Me fingi de bêbada dizendo que o
acompanhante tinha me largado sozinha e procurando o caminho acabei entrando no
campo.
Meu francês é muito bom mas, pelo sotaque perceberam na hora que
eu não era francesa. Como falei antes, aquele era um ponto onde eles sabiam que
muitos refugiados passavam e me perguntaram na hora se a bebedeira não era uma
desculpa.
Assumi no mesmo momento e eles nos orientaram como sair do campo.
As três da manhã chegamos na pequena estação que, naturalmente,
estava fechada. Brincando, apesar de desespero, achamos que a solução era
construir um iglu. Neve tinha em quantidade para levantar um edifício, mas Deus
existe e de repente apareceu um guarda com as chaves. Abriu as portas para nós,
acendeu um fogareiro e nos deitamos em uns bancos de madeira que na hora
não teria trocado nem por uma cama de plumas.
Nos
virávamos o tempo todo porque o lado que não estava virado para o fogareiro
ficava congelado. Foi uma noite memorável e às dez da manhã finalmente pegamos
o trem para Paris.
O trem estava repleto e eu nunca imaginei que podia dormir em pé.
Encostei no meu marido, não sei por quanto tempo, até que uma pessoa muito
gentil nos cedeu um lugar. Sentei no colo do Oscar e peguei no sono na mesma
hora.
A entrada em Paris para nós foi um triunfo maior do que a entrada
do Napoleão. Eu, com o mesmo casaco que tinha escorregado na lama, tirei da
maleta uns sapatos e, com as botas envoltas num jornal rasgado, entramos em um
dos hotéis mais caros de Paris que pertencia a um parente meu.
Os porteiros estavam avisados da nossa chegada e, muito solícitos,
com um carrinho perguntaram pela nossa bagagem. Provavelmente eles devem ter
achado que os parentes do dono eram de profissão mendigos ou alguma coisa
parecida. Com toda razão depois de noites sem dormir, sem comer e todas as
aventuras que contei, só podiam achar isto.
Ficamos só um dia neste hotel por causa de nossa situação como
refugiados. Íamos perder o apoio financeiro e logístico se soubessem que
tínhamos parentes ricos na cidade.
Pela primeira vez, em quatro meses, sem ter identidade fomos
levados para a prefeitura aonde nos deram umas carteiras provisórias para ter
direito a cupons de alimentação sendo que na época, a situação na França ainda
era muito crítica.
Com o pouco dinheiro que eles davam, fomos para um hotelzinho num
dos pontos mais famosos de Paris. Na frente do cemitério Père Lachaise aonde
eram enterrados famosos como artistas, escritores e muitas outras
personalidades. O hotel, como a maioria dos pequenos hotéis de
Paris, alugava quartos por hora para casais apaixonados.
Pelos buracos das paredes, descobrimos que não havia tijolos; o
forro era feito de uma espécie de palha que não era a prova de som. Obviamente
a gente se divertia ouvindo os ais e uis vindos do quarto ao lado.
Sem carteira de trabalho era difícil arrumar emprego e os dois
meses que nós recebemos ajuda financeira passaram rápido. Meu marido arrumou um
emprego numa loja de roupas para homem.
Ele ficava num balcão em cima, aonde tinham pendurados, por cores
e números, centenas de ternos. Os vendedores gritavam de baixo:
- “Me alcança um terno marrom esportivo número 52.”
Ele achava aquilo deprimente, mas a gente tinha um péssimo hábito
que era o de comer quando se estava com fome.
Eu, por meu lado, raspando os últimos francos, comprei uma máquina
de costura de pedal dura no funcionar, descascada, mas costurava. Entre os
refugiados corriam notícias de fábricas que davam lençóis ou guardanapos para
fazer bainhas. Com um pouco mais de dinheiro nos mudamos para um hotel melhor,
aonde tinha uma pequena cozinha e lá ficamos durante o resto da estadia em
Paris.
No meio de todos os problemas financeiros e morais apareceu nosso
excêntrico amigo Mário com uma proposta que iria resolver todos os nossos
problemas e nos deixar ricos em pouco tempo. Era para ele e meu marido serem
espiões no Egito. Primeiro, achamos que era uma piada mas, maluco como ele era,
falava sério. Eu achava que nenhum dos dois tinha aptidões tipo James Bond e,
em vez de liberdade e dinheiro, íamos acabar, na melhor das hipóteses, numa
prisão no Egito e esperar manter nossas cabeças no pescoço pois, sempre para a
espionagem, o perdão vinha através de vinte atiradores e uma parede atrás da
gente.
Uma das aventuras mais improváveis de acontecer aconteceu comigo.
Parentes nossos da Paris que antes da guerra, no mundo da música, tinham
relações com altas personalidades inclusive ministros, me perguntaram se eu
além de fazer bainhas em lençóis poderia fazer conserto nas roupas de uma
ministra. Nesta altura, com as necessidades que nós passávamos no momento, eu
teria afirmado que sabia até fazer safáris na África.
Por conta da minha afirmação veemente sobre capacidade em costura
me marcaram um dia para ir lá. Era uma personalidade muito importante, morava
num palácio na zona mais chique de Paris, mas no momento estava viajando. Quem
me recebeu foi uma governanta encantada com o fato de eu falar francês. Me fiz
passar por momentos interessantes, divertidos e às vezes preocupantes.
Na portaria da casa, me recebeu um porteiro com um uniforme de
gala que acho que era uma cópia fiel com que Napoleão usava em momentos
importantes. Voltando à governanta, tão encantada de conhecer uma romena fugida
de um país comunista, me deu uma atenção excepcional.
Primeiro, nada de fazer bainhas na roupa da ministra. Na mesma
hora abriu uma lata de caviar, um champanhe, torradinhas enquanto eu tentava
comentar a história da minha fuga. Depois do aperitivo, me levou no
closet da madame que era de um tamanho impressionante. Primeiro nós vimos os
duzentos se não mais vestidos de todas as cores, grifes, tamanhos, etc. Depois
abriu outras portas aonde estavam os casacos de pele, do bolero até o
tornozelo, todos, naturalmente, das peles mais caras e raras.
Neste momento, passei da euforia para um momento de pânico. Achei
que só faltava abrir o cofre para me mostrar as jóias da família. Até pensei
que, todo aquele fato de me mostrar roupas e peles, fosse uma preparação para o
passo seguinte. Felizmente, nada mais aconteceu. Finalmente almoçamos com
vinhos e, provavelmente, alguma coisa com os famosos molhos
franceses.
Nesta altura já eram quase três horas da tarde e as bainhas
estavam esperando. Ela me disse que sabia costurar muito bem e ia me ajudar e,
de fato, às quatro horas estava tudo pronto e eu recebi uma bolada de dinheiro.
Saí de lá me beliscando para saber se eu tinha sonhado com tudo aquilo.
O tempo estava passando e, como nossa intenção era sair da Europa,
começamos a procurar países que admitiam pessoas com a origem duvidosa por
conta do atual regime da Romênia. Nada disso era nossa culpa, mas era difícil
provar, mesmo tendo deixado o país. O mundo achava que nós podíamos ser
mandados para outros lugares com o intuito de, futuramente, virar informantes
dos soviéticos.
A primeira opção foi Austrália. Descartamos logo pois nossa
esperança era de um dia reencontrar nossos pais e achando que geograficamente
sendo muito longe a distância, seria um impedimento. A segunda opção foi
Canadá. Maravilhoso, diriam todos vocês, só tinha um pequeno senão: os
primeiros dois anos ficaríamos no extremo norte do país para meu marido que tinha
o biótipo adequando para cortar árvores de grande porte. Eu, que sempre fui uma
grande friorenta, fiquei gelada só de me imaginar morando numa cabana de
madeira, óbvio, com um fogão a lenha, uma chaleira com água quente esperando a
volta do marido cansado, com calos na mão por falta de prática, sendo que ele
era um universitário de família abastada.
Abortamos Canadá e ficamos esperando outras chances. De repente,
um calafrio positivo no pequeno grupo de romenos em Paris: o Brasil abriu as
portas para imigrantes. No dia seguinte estávamos lá e, por muita sorte, a
secretária era filha de um adjunto que tinha estado na Romênia em certa época.
Isto gerou uma onda de simpatia e, com o máximo de gentileza, procuramos juntos
o que o Brasil mais precisava na época.
Na realidade a classe A não interessava; necessitavam de mão de
obra especializada em vários setores. Olhando na lista vimos que eram
necessários aqueles que entendiam de couros. Nos prontificamos na hora de
trazer papéis que comprovassem nossas especialidades. Num dos grandes hotéis de
Paris, em um banheiro muito chique, tinha alguém que fornecia todo o tipo de
diploma, acho que conseguiria provar até que meu marido podia ser indicado para
um prêmio Nobel. Ele arrumou um atestado de como Oscar tinha grande experiência
como curtidor de couro, o que era muito procurado no Brasil.
Eu, por meu lado, era uma técnica em segredos de lavanderia. Como
tirar manchas especiais e em produtos de lavar a seco.
Assim nós conseguimos nossos vistos e começamos a procurar o
melhor modo de chegar no Brasil. Não havia muita escolha. No final, quem
organizou e pagou nossas passagens foram os mesmos que coordenavam os
transportes dos assim chamados, refugiados políticos.
Num belo dia de março, nos comunicaram que íamos para Marselha
embarcar num transatlântico que era mais para barco do que o título pomposo de
trans. Chamava-se Campana e era a última viagem, acho que, na volta para
França, iriam botá-lo em um ferro velho, amassar e vender para fazer latinhas
de Coca Cola.
Nossa cabine particular era para nós dois e mais trezentas pessoas
na primeira classe, começando do fundo do navio. Depois de ver nossos beliches
não precisamos mais do que cinco minutos para decidir passaríamos os próximos
nove dias que levava a viagem no convés olhando as ondas do mar de dia e as
estrelas à noite.
Durante toda a viagem o almoço era macarrão com guisado coisa que
até hoje me lembra a minha falta de entusiasmo na hora que tocava o sino para
comer. Meu marido que adorava massa, saiu de Marselha com oitenta e dois quilos
e chegou ao Rio com noventa quilos.
A hora do banho foi uma das coisas que mais me divertiu, se posso
chamar assim. Havia muitos camponeses espanhóis que, traziam junto, um século
de atraso. Eu e mais cinco romenas, imigrantes mas de classe alta, na hora do
banho que era privativo para dez pessoas, sem pensar muito, tiramos as roupas
e, lógico, nuazinhas fomos para os no chuveiros. As camponesas, com os mesmos
vestidos pretos até os tornozelos que embarcaram, tinham na mão um pano molhado
e ensaboado que, por baixo da roupa lavavam provavelmente até onde a mão
alcançava.
Ficamos sabendo mais tarde, por uma pessoa que nos contou rindo,
que elas achavam que nós as romenas na realidade éramos prostitutas em viagem
para o Brasil para exercer nossa atividade rotineira.
Assim e assado, passamos os nove dias. Não posso esquecer a parada
na África, uma noite de calor infernal, que nós todos achamos que iríamos ver
um pouco de civilização. Não sei como os outros barcos foram recebidos. Faltou
entusiasmo, faltou gente e nós, apesar de estarmos acostumados a atravessar os
campos à noite, como não vimos nem um cachorro, até um leão, nesta altura,
seria bem vindo.
Fiquei me perguntando se aquilo era a realidade ou a nossa
imaginação tinha criado aquele vazio deprimente.
Em compensação a chegada no Rio foi emocionante. Com todo nosso
medo do que o futuro nos reservava, a vista do Rio à meia noite, com as
luzinhas maravilhosas da cidade. A baía era um sonho que tornaria realidade
todas nossas aventuras para chegarmos a momento.
O navio devia estar em melhores condições do que eu pensava pois,
apesar de todo mundo num lado da ponte, ele resistiu e não virou, como anos
mais tarde, durante o Reveillon, aconteceu aquela tragédia.
Era este o momento que representava um começo de vida, quase um
renascimento.
Foi a
última noite a dormir no convés e, no dia seguinte, não me lembro a data exata,
em março, amigos dos meus pais nos esperavam no cais. Eles tinham saído da
Romênia bastante tempo atrás pois tinham um tio rico e muito bem relacionado no
Rio. Me lembro que um dos amigos íntimos era JK.
Depois dos abraços e um pouco de lágrimas da parte feminina, a
organização nos botou nuns táxis. Éramos ao todo quinze romenos entre mulheres
e homens. Fomos para um hotelzinho na Lapa que era vizinho de um Pronto Socorro
aonde a cada cinco minutos chegava ou saia uma ambulância e a sirene era
exatamente o mesmo som que durante os bombardeios anunciava a chegada dos
aviões em cima de Bucareste. Ao ouvir aquele som me transportei
psicologicamente na época e que na hora de ouvir a sirene a gente pulava da
cama para correr nos abrigos. Tive uma conversa muito séria comigo e me falei:
Você está no Rio de Janeiro, milhares de quilômetros longe da guerra. Assim
mesmo custei a me convencer até que nós e mais um casal imploramos ao dono do
hotel para nos alojar na outra ala para ficar um pouco mais longe das
ambulâncias.
Intimidades dos casais ficaram para um futuro próximo pois durante
a travessia do Atlântico, meio que nós tínhamos uma vaga lembrança que uma vez
na vida existia um quarto, com uma cama no escuro, sem gente à nossa volta.
Apesar de nossa juventude talvez o fato de falar outras línguas
tenha nos atrapalhado um pouco e nos fazer entender pelos outros se tornou um
problema muito sério. Uma das primeiras frases que eu aprendi era quando alguém
me dizia alguma coisa que eu não entendia, repetiam gritando achando que eu era
surda, aos quais eu respondia: “eu sou estrangeira e não surda”. Na hora me
dava um pequeno desespero mas, como eu escrevi antes, em poucos meses tudo
entrou no normal.
Tivemos
que reaprender a falar quase como os bebês que aprendem todo dia uma palavra
nova.
Eram novos hábitos, mentalidade diferente. Tínhamos que esquecer aquilo
que achávamos adequado durante os primeiros vinte e dois anos e pensar e agir
nos adaptando a viver num país jovem, sem as regras às vezes rígidas de uma
Europa com milhares de anos de passado.
Por sorte nós, o casal, éramos pessoas muito flexíveis e depois
das aventuras da travessia, achamos aqui o paraíso. Calor, muita gente jovem e
bonita, frutas tropicais e carnaval.
Mais que isto seria exagerar, querer demais da vida.
Ficamos
um mês no hotel pago pela organização. Neste meio tempo aconteceram coisas mais
que cômicas como por exemplo:
Na primeira noite do hotel na Lapa, eu e meu Oscar, entramos numa
lanchonete e, na linguagem universal do dedo, apontando, pedimos dois iogurtes.
Eu sempre achava que vivendo num país a primeira coisa é procurar aprender,
quanto mais rápido possível, a língua.
Me baseando no fato de meus pais de origem espanhola falavam as
vezes em casa numa língua chamada sefaradi, muito parecida com o português,
sendo língua latina.
Perguntei na expectativa que o garçom ia entender minha pergunta:
- Como se chama isto? Ele prontamente respondeu:
- Mais.
Na hora eu achei que iogurte, em português, se chamava mais. Meu
marido querendo simplificar as coisas levantou quatro dedos pois nós tínhamos
convidado o casal com quem compartilháramos o quarto e pediu em voz alta e
clara:
- Quatro mais.
O garçom que era o mesmo da outra noite prontamente perguntou:
- Mais café, mais coca cola e mais não sei o que. O dono da
lanchonete, um português bem vivo, deve ter se dado conta da expressão do
garçom pois chegou na nossa mesa, pegou meu marido pela mão e levou até o
balcão ande perguntou:
- O que?
Meu marido apontou e o dono falou: Isto se chama iogurte. Quando
Oscar chegou na mesa rindo e contou o nome que em romeno se chama iaurt
chegamos a conclusão que toda vez que queríamos alguma coisa nós devíamos
tentar primeiro em romeno.
A base de muitas risadas, aprendemos aos poucos que nem tudo que
nós achávamos ser a palavra certa era certa mesmo.
Por exemplo: Cada vez que alguém espirrava, eu feliz, desejava em
voz bem alta e clara saudade. Nunca entendi porque as pessoas em vez de dizer
obrigado davam uma risada e com toda boa vontade explicaram que a palavra era
saúde e não nostalgia por alguma coisa do passado.
Como eu nunca na vida me sentia perseguida ou coisa parecida,
levava tudo na brincadeira procurando falar errado com todos os erros que eu
fazia, mas falar. Tanto que no mesmo ano, em setembro, já podia me fazer
entender e assimilar cada vez mais palavras novas.
Posso dizer que na época a Seleções foi uma espécie de aula para
mim. Deduzindo por algumas palavras que eu conhecia, aprendia trechos inteiros
de cada vez. O melhor curso de línguas é o que eu chamo de a escola da vida.
Aventuras como a história do iogurte aconteciam o tempo todo;
podia dedicar um livro inteiro a situações uma mais cômica que a outra. Mas
vamos correr um pouco no tempo pois a paciência dos meus leitores pode se
esgotar.
Vou contar nosso começo no Rio.
Na vida, o papel dos amigos pode ter uma importância muito grande.
Mencionei antes que amigos dos meus pais, aqueles que nos
receberam no porto, estavam numa situação econômica bem boa. Eles abriram
os braços procurando nos orientar com os hábitos e sistema de vida no Brasil.
Achamos um pequeno apartamento que um casal, que queria voltar
para a Alemanha, nos passou um bom contrato por U$ 1000,00 que nossos bons
amigos nos emprestaram lembrando que juntos e por causa do meu pai, ganhavam
muito bem em Bucareste. Acabaram nunca pedindo o dinheiro de volta. Para nós,
na época, U$ 1000,00 representava uma fortuna que a gente custou a ganhar.
O apartamento era em Ipanema, que viria ser mais tarde, um dos
melhores bairros do Rio. Tinha no apartamento que se chamava mobiliado uma cama
turca que caía quando a gente sentava. Faltava um pé, um colchão
inadequado mas para quem dormiu até em banco de madeira, não deixava de ser um
colchão. Tinha uma armário pequeno, uma mesa e duas cadeiras. Mas tinha a coisa
que mais importava no momento: uma geladeira e um fogão.
Em princípio podia começar a cozinhar no dia seguinte, se não
houvesse um grande impedimento. Tudo o que a gente tinha trazido de Paris eram
dois garfos e duas facas e duvido que tinha alguma colher.
O casal alemão tinha levado tudo que podia; não tinha nada na
cozinha.
Sem pensar muito, acostumada na Romênia a ter tudo que precisava,
convidei nosso casal de amigos e o tio amigo íntimo de JK para jantar.
Na manhã do dia seguinte, caiu a ficha como se diz. Quando me dei
conta que não tinha toalha, nem pratos e o resto, minha primeira reação foi
sentar na cama e chorar. Mas como futura gaúcha valente que viria a ser vinte
anos mais tarde, me endureci e falei comigo mesma: - Coragem, você é a mesma
pessoa que sempre foi com pratos ou não.
Fui à luta em seguida. No térreo do nosso edifício, tinha uma loja
de tecidos de um turco muito gentil. Nas vinte palavras que era todo o meu
vocabulário na época, pedi para ele me dar o tecido branco mais barato que
tinha na loja.
Pensando nas toalhas de linho bordadas que deixei na Romênia,
comprei um tecido de lençóis que foi a primeira grande compra que eu fiz no
Rio. Mais cinco pratos baratinhos mas bonitinhos, cinco copos, mais três
talheres, botei flores na mesa e recebi eles como se aquele jantar fosse uma
coisa comum na minha vida.
Aos pouquinhos e com muito trabalho começamos a complementar as
coisas necessárias. Meu marido tinha começado a trabalhar logo e eu vou contar
mais tarde o que umas aulas de costura que eu tinha feito com dezesseis anos
representaram na minha vida.
Primeiro vou relatar que depois de uma semana de trabalho, todos
os sábados de tarde íamos na praia do Arpoador que era bem perto da nossa casa.
Animados por ver gente pescando arrumamos não sei de onde, um pau comprido com
um barbante na ponta e como isca, pedacinhos de carne. Fomos nós, os dois
patetas, numa tarde linda pescar com o pau e a sacolinha de carne nas famosas
pedras do Arpoador.
Mal nos acomodamos e jogamos a isca começamos a ouvir gritos
vindos da rua da praia e, provavelmente, também do nosso Santo protetor. Era
hora da maré em que começavam a vir grandes ondas que praticamente varriam tudo
que estava em cima das pedras.
Pelo tamanho da gritaria e gesticulação das pessoas ficamos nos
perguntando qual era a lei que estávamos infringindo. Descemos e meia hora mais
tarde assistimos ao magnífico espetáculo das ondas gigantes cobrindo as pedras.
Era de fato uma coisa maravilhosa de se ver e por sorte nós saímos a tempo de
lá.
Um ano depois, tivemos a felicidade de trazer ao Brasil nossos
pais que se adaptaram muito bem apesar da idade e da situação monetária da
família que era das mais críticas. Mas acho que o otimismo era genético pois
senão como explicar que eles só viam as coisas boas da situação. Mais um ano ou
dois começamos a pensar em filhos que chegaram pouco depois com intervalo de
mais ou menos dois anos. Foram filhos maravilhosos. Nos mudamos no primeiro ano
para o Leblon, compramos móveis, carro, e entramos numa vida mais perto do que
vínhamos sonhando há anos.
Os últimos quinze anos moramos de novo perto do Arpoador e perto
da praça General Osório aonde meus filhos passaram grande parte da infância. No
ano de 1970 meu marido foi nomeado diretor de uma fábrica no RS e nos mudamos
para cá com toda a tralha e um monte de lembranças boas.
Começamos a fazer amizades aqui. A nossa história da vida
interessava muito e sempre às pessoas. Depois de cinco minutos de conversa
vinha e, até hoje, as perguntas são as seguintes: Qual é a sua origem? Quando e
porque vieram para o Brasil? Em que ano? E assim por diante. Estou acostumada a
concentrar nossa história se não vocês que leram meu livro imaginam as horas
que duraria contar a metade das aventuras.
Uma coisa divertida que eu preciso contar dado ao fato que entre
Rio e POA, apesar da distância não ser tão grande, os sentidos das palavras
criam situações realmente cômicas. Uma das primeiras que não esqueço, é um dia
procurando por um anel que eu não achava, perguntei a moça que trabalhava
conosco se ela não tinha visto o tal. Me respondeu na hora que estava no
bidezinho. Meio admirada fui para o banheiro, olhei no bidê que teria sido o
último lugar aonde eu colocaria o anel.
Voltei dizendo para ela que não achei e na hora me levou para o
meu quarto e, no que eu chamo mesinha de cabeceira, estava o meu procurado
anel. Vai adivinhar e como que em POA mesinha é bidezinho.
Outra que vale a pena contar é uma amiga nos convidou num sábado a
noite para jogar cartas e, ao mesmo tempo, me contou toda animada que tinham
comprado de manhã um terno de veludo vermelho. Pensei na hora, no aspecto do
marido que era bastante jovem e bem apessoado mas assim mesmo não conseguia
imaginá-lo vestido de veludo vermelho.
De noite, na hora de entrar no apartamento, a primeira coisa que
ela fez foi nos levar para a sala e mostrar orgulhosamente o conjunto de sofá e
poltronas, adivinhe logo a cor e tecido dos móveis. Na hora tive um ataque de
riso e contei para ela a imagem que eu tinha feito do marido dela em traje de
gala.
Coisas assim aconteceram o tempo todo. Como eu que gostava da tal
carne chamada maminha de alcatra, assim que cheguei a POA, na primeira ida ao
supermercado, pedi com toda a naturalidade a maminha. Me responderam que não
conheciam tal carne, eu tentei explicar até por gestos que o formato da maminha
parecia um triângulo. Não sei direito se ele sabia o que era um triângulo, pois
continuou me dizendo que não conhecia nem de nome. A coisa se repetiu durante
um ano eu pedindo e eles me respondendo que aqui se cortava a carne diferente e
que devia ter outro nome. Comecei a perguntar à todo mundo até que uma amiga me
disse que aqui chamavam de chapéu de bispo. Ninguém acredita hoje quando eu
conto, mas juro que é verdade. Fui correndo no super e desta vez esperando que
vão me atender sem problemas pedi 1kg e meio do chapéu de tal. O rapaz muito
gentil me disse: - A senhora sabe que muita gente chama isto de maminha de
alcatra? Ele deve lembrar da minha cara até hoje, tal foi minha expressão de
espanto e ao mesmo tempo de contentamento.
A outra coisa que me persegue até hoje é quando entro numa padaria
e peço cinco pãozinhos, não consigo dizer a palavra que todos conhecem aqui.
Olhando para trás me dou conta que na vida não somos nós que
fazemos as coisas acontecer. Tudo já é predestinado, acontecem uma após as
outras para o bem e às vezes não tão bem.
Agradeço
ao meu destino que sempre me guiou da melhor maneira, tanto que me botaram no
caminho daquele que foi meu companheiro, amor e apoio em todos os momentos. A
nossa vinda para o Brasil não foi propriamente nossa escolha pois como escrevi,
recusamos outros países para no fundo aparecer o Brasil que nós decidimos que
seria bom para nós.
Sempre considerei que alguém que sabia de tudo, que viria no
futuro, nos guiou indiretamente para cá. Aqui realizamos nossos sonhos,
trabalhando muito e, às vezes duramente para isto, mas a gente não recebe nada
de graça neste mundo; tem que fazer por merecer.
Ajeitamos nossa vida aqui. Deus nos deu tudo que uma pessoa quer
neste mundo. Me deu um companheiro para todos os momentos, me fez mãe, avó de
quatro netos lindos das minhas noras gaúchas e, a maior benção que eu poderia
pedir, ter a felicidade de ter dois bisnetos.
Estou cansada de afirmar para todos que se queixam de pequenos
problemas que nesta idade ficar de pé e respirar já é muito, o resto são
presentes da vida e quem não se der conta disto perde o prazer de apreciar um
céu azul, as árvores lindas e muitos motoristas gentis que param o carro e
acenam para a gente atravessar a rua.
Os bons amigos que valem tanto quanto os parentes e aos quais eu
agradeço o impulso pelo interesse que mostraram pela história da minha vida que
nunca me pareceu tão empolgante como eles me fizeram acreditar.
Dedico este livro a todas as pessoas que me amam, a quem eu também
amo.
A vida é linda.
Valeu a pena cada momento.
Termino desenhando uma flor e dizendo paz e amor.