quarta-feira, 9 de março de 2016

Lembranças da Vovó Mioara Marcelle

Marcelle querida.

Ainda sob o impacto da noticia que o Dudu me deu outro dia, não tenho palavras para exprimir minha emoção, orgulho da pequena menina de 18 anos atrás que admirava pinturas, música e anos mais tarde engolia literalmente livros, não com histórias bobas, mas livros que eu às vezes achava difícil de compreender.
Como é bom saber que temos na família um geniozinho.
Se você se lembra dos segundos episódios que você gravou aqui em casa eu escrevi sobre você que era muito inteligente e esperava grandes coisas da vida.
Está acontecendo exatamente aquilo que eu esperava.
Existe maior felicidade para uma avó do que poder viver estes momentos de realizações dos netos?
Agora, chega de tantos elogios senão você vai ficar muito convencida (na realidade, tens todo o direito de ficar).
O que eu pretendia de fato é lembrar quanto mais coisas do passado, apesar de você ter nascido em São Paulo, o que me impediu de acompanhar de perto o teu crescimento. Vou tentar lembrar quanto mais coisas que eu puder.
Não me recordo de detalhes como: se você dormia a noite inteira, se comia bem, ou se era chorona. O que me lembro é que era bonitinha e que eu compareci no teu aniversário de um aninho.
O 2º aninho me traz lembranças tristes que nem vou mencionar.
Lembro-me que com 3 ou 4 anos junto com a Monique e tua mãe, vieram para Porto Alegre e eu fiz uma cama no chão do quarto de visitas e quando beijava vocês de boa noite, recebia um abraço doce de você.
O que me impressionava na época, por exemplo, é que eu acho que não tinha mais de 4 ou 5 anos, na praia admirava meus posters de pintores famosos que muitos adultos não reconheciam. Você afirmava com muita seriedade que depois de grande iria ser artista.
Acho eu que toda realização na vida é uma arte.
Naquela época, a Vó Mioara era bem mais moça e ia muito a S.Paulo e você vinha mais aqui acompanhando a família. Como não era e não é grande apreciadora de praia, nunca me deu o prazer da tua companhia na orla a não ser anos mais tarde que nunca vou esquecer as aventuras com minha gatinha que subia no telhado e a empregada tinha que subir atrás dela, nós duas embaixo rindo e você dizendo que iria fazer xixi nas calças.
Na realidade, você passava mais tempo balançando na rede e no final de semana, jogando vôlei com o Tio Serginho.
Aliás, este esporte foi muito importante por bastante tempo na tua vida.
Lembro que teve um tempo que o teatro parecia querer ser tua escolha de futuro; até eu assisti me lembro de você até hoje vestida de preto fazendo um papel de velha. O nome Carlito (é certo?) era muito teu companheiro no teatro. Ele seguiu a carreira ou escolheu outra coisa?
Mas no lugar com o tempo, entrou um namorado e os estudos.
Nem sempre se consegue fazer tudo que se gosta.
Lembro-me e olho todos os dias no corredor das fotografias, teu retrato no casamento da Monique com a rosa na mão.
O discurso emocionante que você fez que eu escuto sempre que boto o DVD para ver o casamento. E a menina de olho azul cresceu, está na faculdade, diria que está muito acima da média. Tenho certeza de que vai alcançar muita coisa na vida, pois provou que tem capacidade e vontade naquilo que escolheu.
Em geral escrevo isto no começo dos comentários, mas sobre o impacto da novidade do concurso vou botar no final. Esta história não traz nenhuma novidade que você não conheça.
Eu queria muito que no futuro quando for mamãe um dia irá tirar da gaveta esta escrita e ler estas lembranças para os filhinhos.
Conta que teus avós saíram de um país muito distante, passaram muitas aventuras para chegar no Brasil e em Porto Alegre onde tua mãe conheceu aquele que por muita tristeza te deixou pequena, mas tenho certeza que de lá onde está te acompanha e protege em todos os momentos da tua vida.
Com uma tonelada de amor da tua Vó Mioara


Lembrança da Vovó Mioara Monique






LEMBRANÇAS DA VOVÓ

       MIOARA


                                                                                                        DA INFÂNCIA DA


MONIQUE



Hoje, 7 de abril de 2013 - acho importante mencionar a data, pois espero que daqui a muitos anos alguém descobrirá no fundo de uma gaveta umas escritas de muito tempo da Vovó Mioara.
Interessante lembrar que 2 jovens Romenos percorreram um longo e árduo caminho para chegar no Brasil e a Porto Alegre para hoje ter este prazer imenso de relatar minhas lembranças. Meus netos atualmente sabem muito de minha vida, mas quem sabe a futura geração pode um dia achar interessante todos estes acontecimentos.

Dizem que netos são filhos com açúcar.
É a pura verdade.
Lembro-me até hoje quando meu filho André avisou a gravidez da Suzana.
Do jeito que eu me conheço, garanto que na hora dei um pulo de alegria.
Pensando bem, ou retrocedendo muitos anos atrás, foi preciso 2 jovens Romenos saírem do país deles e passarem por muitas aventuras para chegar ao Brasil, ter filhos no Rio, se mudar para Porto Alegre para aqui conhecer aquela (Suzana) que anos mais tarde ia me dar a primeira neta, esperada com muita emoção pois me transformou numa coisa única: SER AVÓ!.
Passaram 33 anos, mas me lembro como se fosse ontem.
No dia 29 de março na hora do almoço meu filho nos avisou que ela entrou em trabalho de parto.
Esperançosos em casa até de tarde quando novo telefonema nos comunicou que estava quase lá.  Corremos para o hospital FÊMINA e sentamos numa sala perto da sala de parto, foi quando o médico avisou que ia fazer Cesária.
Continuamos com o olhar fixo na porta que ia nos trazer ao abrir a noticia esperada, posso dizer que a espera por um neto, no caso neta, é uma das maiores alegrias da vida.
Entre abrir e fechar a porta, entrando e saindo gente de avental verde, e eu levantando cada vez esperançosa, quando de repente apareceu uma enfermeira trazendo no colo o que parecia um lençol amassado. Naturalmente eu pulei de novo para ver, quando o Oscar me falou: Não está vendo que é um lençol que estão levando para lavar?  SURPRISE!!  No meio do lençol tinha uma figurinha feminina toda amassada. Na hora, eu pensei que era a cara que ela ia ter aos 90 anos! Mas a natureza é a mãe dos milagres: Uma hora depois vimos à própria lavada e vestida com a cara lisinha, docinha, um biquinho que parecia pedir um selinho (é como se chama hoje).
A partir daquele momento até hoje, a carinha amassada de nome Monique foi um dos grandes presentes que Deus nos deu.
Horas mais tarde em casa junto com o titio Sergio, tomamos champanhe para comemorar.
Acabando a história da Monique vai seguir a do Rafael e do Dudu e por ultimo a da Marcelle.
Encerrando com chave de ouro a vinda dos bisnetos Cris e André, frutos da bela árvore que foi o André.
A emoção de ser avó, não sei não, é a maior emoção da vida. Ser pais não fica atrás, mas como escrevi no começo, ser avó tem mais açúcar. Lembro-me que na época pus todo meu talento de tricoteria para fazer um enxoval de inverno.
Lembro-me das calcinhas compridas listradas que eram muito elogiadas, me contava minha nora Suzana.
Com 3-4 meses, apesar do frio, pegava ela bem agasalhada e levava no Parcão, passeava no sol. Com o suco de cenoura e o sol do Parcão, a cor dela era maravilhosa!
Aliás, este Parcão (eu repetindo a palavra) teve uma importância permanente na vida dela. Até os 3 anos quando foram para São Paulo, aproveitei ao máximo os prazeres da companhia dela. Começou a falar não muito cedo e muito engraçado. Lembro-me de uma noite na praia no colo do pai, na hora que todos íamos sair para comer um sorvete, acho que foi a primeira frase que ela falou “Eu quero ir chunto”. Não esquecendo que com 6 – 7 meses cantava trecho de Danúbio Azul.
Teve gente chamada Matilde Gus que não acreditando quando eu contava, veio na minha casa com uma amiga e, sentadas na sala, ouviram pessoalmente a própria com aquela vozinha pequena mas bem clara cantar o Danúbio. Também de noite quando a “LUIA” aparecia, batias as palminhas.....
Compramos para ela a primeira piscininha redonda aonde me lembro bem que além dela meus filhos também se espichavam na água morna do sol. Como escrevi antes, com 3 anos a família se mudou para São Paulo, mas o círculo não se rompeu, só se espichou mais. Uma lembrança muito forte a de eu ter feito o bolo dela quando completou 1 aninho. Minhas mãos viraram mãos de fada pois o bolo tinha boneca, balanço, piscina, pombas, flores e grama verde de açúcar.
Esta felicidade se repetiu seis anos atrás quando a bisneta Cris fez um ano e eu procurei aliando lembranças, material e muito amor fazer um bolo bem parecido com aquele que tinha feito para a mãezinha dela.
Voltando à mudança para são Paulo, por muito tempo as conversas telefônicas com ela eram ininteligíveis mas com o tempo melhoraram e até hoje fazem minha delícia pois ela me conta tudo que acontece na vida deles. As lembranças abundam com mais rapidez do que eu consigo escrever. Na época, ela não deveria ter mais de cinco anos, Oscar veio junto com ela para Porto Alegre. Não estranhou nem nada, também o quarto ficou parecendo uma loja de brinquedos..
Tinha uma cesta de plástico branco para verduras que virou balanço de boneca. Tinha pratinhos, xícaras, fogão tábua de passar, bonecas pequenas e uma bem grande que aos poucos perdeu o cabelo, um braço, uma perna e acabou no lixo. Quando estava muito frio, enfiava ela na cama com duas bolsas de água quente (pois a avó tem horror de frio). Lembra, Monique? A partir daquela data até os doze anos quando apareceu a maninha na vida dela, todo mês de julho era Porto Alegre e verão em Capão. Nesta altura, a piscina redonda foi aposentada e compramos uma bem maior, que no meio da grama do jardim fez a delícia dela por muitos anos. Acompanhava ela na piscina duas bonecas, 1 pretinha e uma barrigudinha que estão até hoje na minha lembrança.
Por falta de grande família, não tinha crianças para brincar e a avó Mioara caçava na rua meninas, oferecendo piscina e lanche só para ter companhia. Não é? Fora as dezenas de bisnaguinhas com queijo e presunto que ela comia na frente de casa à tarde, torradinhas na hora e de vez em quando gritava: “VÓ! Faz mais quatro”, chegava às vezes até 10.
Uma lembrança muito forte e querida é sobre a amiga Mariana, os passeios delas de bicicleta, os espetáculos de dança que ocorriam no gramado de nossa casa, eu botando cadeiras para nós e para a família dela e emprestando minhas camisolas sexy para elas dançarem! Os finais de semana eram muito esperados pois chegaria o Tio Serginho e a tia Vivinha que gostava muito de crianças. Quando o Rafael entrou na vida dela, foi amor à primeira vista. Além de ser um neném, era um priminho loirinho de olho azul. Quando em julho era sempre Porto Alegre, programa de todos os dias no Parcão. Acho que na época eu podia andar lá de olhos fechados de tanto que eu conhecia tudo, brinquedos, lagos, patos, o moinho e o resto. O problema na época era a pequena esnobe que só queria ir de “TACHI”, não de lotação. A gente saía de casa com a sacolinha de brinquedos para areia, um bolinho e sentava na borda de um quadrado bem grande cheio de areia. Ela brincava lá e eu acompanhava. Não me lembro de nem um momento de eu me sentir cansada ou irritada com a presença dela. Era uma criança tranquila, SÓ...na hora de comer o quadro do comedor com três patinhos virava uma novela.
Acho que este quadro vou deixar para ela por testamento. Neste período a própria avó aqui era bem mais moça!
Eu ia muito para São Paulo para ver eles e eles vinham muito aqui em feriados, e sempre no Natal na praia, onde esperava eles com a árvore bem grande e muitos presentes,
Com 12 anos e a chegada da maninha, mudou um pouco o ritmo familiar. Quem ia mais a São Paulo era eu pois tinha outra pessoinha para ver. O tempo ingrato corre demais e de repente e figurinha amassada com 18 anos fez vestibular de medicina aqui também. Na minha cabeça estava tudo organizado para a estadia dela aqui. O quarto, guarda-roupa e a boneca que estava sempre na cama esperando ela (até hoje). O destino fez aquilo que é certo, a medicina ficou na vontade e aconselhada por uma pessoa muito bem inspirada, fez o que foi uma excelente escolha, tenho certeza que vai progredir cada vez mais, pois vontade e trabalho são a prioridade dela.
Um belo dia apareceu um nome CAIO no meio das conversas. Cada vez mais se falava no tal até que de amizade foi para namoro e foi até chegar no casamento.
Nós o conhecemos durante o namoro quando vieram aqui para Porto Alegre aqui em casa. Era e é uma pessoa educada, tranquila e nós gostamos logo dele; ele pareceu gostar igual pois até hoje quando ele vem aqui, a gente sente uma corrente de amor entre nós. Não é, Caio?
Voltando na época do casamento, por muita tristeza o avô Oscar se foi uma semana antes, mas a vida tem que continuar e a cerimonia e a festa foram maravilhosas. O tio Serginho entrou com ela, a avó Mioara não chorou muito para não estragar a maquiagem. Até hoje tenho o DVD do casamento, que vejo uma vez por mês para lembrar a alegria da festa.
Durante o tempo que eu escrevi lembrando o passado, várias vezes me vieram lágrimas nos olhos, mas este tipo de lágrimas deixam os olhos mais bonitos, de modo que espero que leiam com prazer e interesse todas estas lembranças que esta vovó escritora (depois de velha) relatou para vocês.

Acho que vou parar por aqui pois o resto como a chegada da Cris, eles podem contar melhor que eu. Ela, sem dúvida como todas as crianças são presentes de Deus. Mas a chegada do pequeno André prova que existe alguma coisa além do que se vê pois a vontade de ter um menino para levar o nome do pai foi tão forte que o fato de ele estar aqui hoje mexe com minha emoção e me faz pensar que o que meu filho deixou de viver, Deus vai dar para o meu bisnetinho, para ele cuidar no futuro o que o avô dele não pode ter feito.
Querida Monique, estas lembranças permanecem vivas em mim até hoje, escrevi coisas que não são novidades para vocês, mas adoçaram minha vida.  Desejo para você e tua família que possa ter na vida muitas lembranças boas.



Tua avó Mioara

Mais algumas lembranças

Muitos, mas muitos amigos me pediram que eu escrevesse mais sobre minhas lembranças achando que eu passei muito por cima e que devo ter mais coisas interessantes para contar.
Na realidade, eu considero aventuras os fatos que aconteceram entre meu nascimento e os 22 anos quando fugimos da Romenia.

Naturalmente perto das aventuras da travessia talvez não parecem tão importantes, mas a época entre 14 anos e o fim da guerra não foi menos grave que a emigração.

Me pediram para dar mais enfoque a nosso começo no Brasil.
Se eu não escrevi muito sobre isto, é pelo fato que na realidade as dificuldades não foram tantas e tão complicadas quanto a gente estava esperando.
Pode ser que depois de passar uma guerra e uma emigração estávamos vacinados pelo resto da vida contra maiores problemas.
Então, como me pediram para contar quantos mais acontecimentos eu pudesse lembrar, aqui vão mais algumas lembranças.

Começando, no dia 05 de agosto de 1925 quando a “ subsemnata” fiz tudo para não vir ao mundo.
Não sei porque até que a minha vida com tudo que passei não foi tão ruim, ou então, eu esperava nascer na corte da Inglaterra para ser no mínimo uma Princesa.
Depois de incomodar muito minha mãe no parto, parece que fui uma criança muito boazinha.

Detalhes entre os 2 e 9 anos escrevi na outra história.
Não me lembro nada muito importante ou grave que valha a pena relatar.

Quanto mais a gente mergulha no passado mais lembranças aparecem.
Cada vez que pego numa panela de pressão dou uma risada, pois vem na minha mente uma história muito engraçada.

Em 1947, ano que chegamos no Brasil, pelo que me lembro ainda não existiam panelas de pressão.
Possivelmente, alguém do Rio que tinha parentes em Paris pediu para mandar por alguém que vinha para cá, uma destas panelas.
Casualmente, a pessoa de Paris nos conhecia muito bem e fez para nós um pedido que aceitamos com toda a gentileza.
Na primeira semana no Rio, apesar da enorme dificuldade com a língua, que tornava nossa locomoção um problema enorme, nos informamos na Lapa, onde era nosso hotel, como chegar a Ipanema, bairro totalmente desconhecido para quem estava apenas há uma semana no Rio.
Pegamos um bonde, perguntamos a várias pessoas com medo de não achar a rua e, finalmente, descemos do bonde com a bendita panela na mão.
Subimos no apartamento do parente e tocamos a campainha.
Naquela época não existiam ainda os “olho mágicos”. Na porta tinha uma janelinha de vidro, que se abriu e apareceu um senhor que olhou para nós com um sinal de interrogador.  Falamos em Romeno pois era a língua dele também, que chegamos de Paris.
Não deu tempo para dizer mais nada pois ele pediu para esperar um minuto.
Fechou a janelinha e voltou minutos depois com uma nota que hoje em dia eu diria de R$ 10, dizendo que infelizmente não podia dar mais.
Tudo isso através da janelinha sem ao menos abrir a porta do apartamento.
Nós ficamos chocados e ofendidos com tamanha indelicadeza e na mesma hora, sem falar mais nada, meu marido pegou a nota e nós fomos embora COM A PANELA.
Ele não ficou sabendo de nada pois não nos deu a chance de explicar o motivo de nossa vinda.
Nós aproveitamos muito bem a panela e cada vez que eu pegava nela dava uma risada pensando na cara que o parente do Rio deve ter achado quando algum tempo depois o de Paris estranhando a falta do agradecimento deve ter ligado para ele e toda a história veio à tona.
Por semanas, o cara do Rio se informou sobre nós pois ele nem sabia nosso nome.
Quando nos achou, nos inundou de desculpas mas nunca mais viu a tal da PANELA.

Bem feito, não achou?

Mais lembranças da Mioara

MAIS LEMBRANÇAS DA ... MIOARA


Para não parecer que eu gosto de extorquir lágrimas, comecei contando coisas mais alegres e continuei com histórias verdadeiras, às vezes chocantes mas foi esta a minha vida.

Descobri que escrevendo sobre minha vida passada me dá uma sensação maravilhosa, não sei se me provoca uma descarga de endorfina ou me faz descobrir um talento latente, o de escrever.
Nunca imaginei que fosse tão fácil botar no papel acontecimentos que sempre considerei de tão pouca importância.
Mexendo numa parte do cérebro totalmente fechada, saiu uma enxurrada de lembranças da minha infância que me fizeram rir. Pensando bem, a comédia faz parte da vida, só que na hora que acontece a gente não se dá conta de como são hilárias.

Por exemplo, uma lembrança suave é sobre um passarinho que fazia um ninho embaixo do telhado da nossa casa em Ploesti. Como todos sabem, na chegada do frio eles formam verdadeiros bandos que voam em V com um pássaro experiente na ponta. Eles procuram, guiados pelos ventos, países mais quentes para passar o inverno. Por incrível que pareça, os mesmos voltam para os mesmos lugares meses depois, inclusive nosso passarinho que vinha há anos no mesmo ninho para nossa alegria e espanto pela intuição incrível que eles tem.

Outra história, desta vez cômica, é de uma gata que a gente tinha por anos. Um belo dia, bem na época de ter gatinhos (me lembro que minha mãe preparava para ela uma caixa acolchoada pronta para o parto). É comum para quem tem gatos, estar acostumado de ver eles caminhando pela casa o tempo todo. Um belo dia, na hora do almoço a gente se deu conta de que não tinha visto ela durante toda a manhã. Preocupados, eu e minha mãe começamos a procurar por toda a casa, no jardim e até na rua. Pelo meio da tarde entrando no quarto dos meus pais, achamos que a colcha estava mais alta no meio da cama. Acho que eu fiquei amarela e minha mãe ficou verde com pressentimento de que iríamos achar tirando os cobertores. Isto aconteceu pelo menos há 80 anos atrás lembrando que na época não havia tergal e os travesseiros eram de um tamanho descomunal. Os lençóis eram brancos, de linho, engomados e bordados. Não preciso dizer o que vimos na hora de abrir a colcha: Bem acomodada no meio da cama com 8 ou 10 gatinhos numa poça de sangue e ela bem feliz.
Como conclusão, foi preciso forrar de novo os colchões pois estava tudo manchado.

Outra lembrança eu diria meio humor-negro era de uma velhinha (minha mãe sempre ajudava de muitas maneiras pessoas de idade) vinha uma vez por semana tomar banho na nossa casa.
Me lembro bem da velhinha miúda, magra, praticamente ossos e pele. Minha mãe encheu a banheira de água, ajudou ela a entrar e deixou ela não mais que 5 min. para ir na cozinha.
Chegando na banheira na volta o quadro era o seguinte: A velhinha desmaiada com a cabeça quase dentro da água, pálida e mole.
Com todo esforço da minha mãe e a empregada, não conseguiram tirar ela da água. Desesperada, minha mãe foi para a rua pedir ajuda para a primeira pessoa que passava. Esta pessoa era um homem! Ele levantou sozinho a velhinha nua, e botou ela na cama da minha mãe. Não me lembro mais a sequencia, não sei o que fizeram, só sei que depois que a velhinha acordou, minha mãe resolveu que este foi o último banho que ela tomou na nossa casa.

Pelo que me contam, quando eu era bem pequena e passeava na rua com a Ana, a empregada provavelmente como todas as crianças aliás meninas nesta idade, chama atenção pelas roupinhas bonitas, laços no cabelo, etc.
Contava a empregada que muita gente na rua parava para conversar sobre a menininha ..... perguntando se tinha mais irmãos.
Parece que eu respondia na hora: Só tem uma, mas muito especial!. Em Romeno a frase era mais ou menos isto. Não deu para traduzir com as mesmas palavras. Hoje me pergunto o que fazia uma menina de 4-5 anos ter uma opinião tão boa sobre ela.

Dizem que todos os traumas vêm da infância.
É a pura verdade.
Não sei com que palavras explicar o terror que eu sinto na proximidade de uma galinha ou até de um passarinho.
Baste ter penas para me provocar um desespero incontrolável.
Levei anos me perguntando de onde vinha este trauma até que um dia descobri.
Na época que eu deveria ter não mais que 5-6 anos, não existiam supermercados nem galinhas limpas.
Eram compradas vivas e a empregada levava para o fundo do jardim e cortava a metade do pescoço e jogavam a galinha na grama aonde ela pulava com as asas abertas bastante tempo. Chega me dar uma espécie de enjoo de contar isto.
Eu olhava de longe e imaginava que se eu chegasse perto a galinha ia pular em mim.
Nem depois que apareceram os super com as galinhas em saco plástico consegui me livrar deste trauma.

Sobre minha personalidade, sempre me lembro de mim com os joelhos ralados, acabava um machucado e vinha outro no mesmo lugar.

Subia em tudo que podia: árvores, grades de rua; a altura me inspirava.
Sempre gostei de amiguinhos meninos; achava as meninas sem graça.
Comecei a apreciar bonecas bem tarde, na época que me inspiravam criar roupinhas para elas.

Outra lembrança era na época de fim do verão quando se faziam dezenas de potes e vidros de conserva.
Durante o inverno, não existiam verduras e nem frutas.
A gente dependia das conservas que eram feitas em casa pois não tinha onde comprar durante muitos meses.
Se eu contar as quantidades, vocês não vão acreditar. Por exemplo: 80 quilos de tomates para ter molho pronto, 50 quilos de ameixas, que eu tirava os caroços para fazer doces.
Minha especialidade era enfiar quiabos num barbante que pareciam colares que se penduravam, para secar no sótão.
O maior problema da minha mãe eram conservas de ervilha. Com todos os cuidados que ela tinha, durante o inverno de repente no meio da noite escutava um estouro e de manhã na dispensa o chão estava cheio de ervilhas e um cheiro desagradável.
Nem falar nos 90 repolhos colocados num barril com salmoura.
Me lembro até hoje dos tomates que engrossavam na cozinha nos fogões e tinham bolhas que estouravam e manchavam as paredes.
Na época não ainda existiam os azulejos. “Como os tempos viraram amigos das donas-de-casa”. Com todo este trabalho se achava tempo para bordar ou fazer tapeçarias com pontos milimétricos e os filhos cresciam mais independentes brincando muito na rua.

Eu acho que nossa geração aprendeu desde cedo e sozinhos a se defender de muitas coisas que hoje em dia com todos os avanços tecnológicos e o resto, os pais lutam com dificuldades para controlar a vida dos filhos!

Com 9 anos e a mudança para Bucareste, minha vida mudou muito.
Primeiro fui morar num apartamento e como não tinha irmãos para brincar e a rua, de certo modo era estranha, eram só edifícios, não tinha crianças como era acostumada a só sair de casa e encontrava amiguinhos que cresceram junto comigo.
Tudo se resumia nos amigos da escola que às vezes moravam bem longe e não dava para se ver com frequência.
Lembro que depois de insistir bastante com meus pais para me deixarem ir sozinha inclusive de ônibus nas casas dos amigos, na primeira saída por azar caí da escada do ônibus e foi a última vez por muito tempo que me deixaram ir sozinha nos lugares.

COMEÇO DOS PESADELOS

Entre 12 e 14 anos tive um período muito bom; criei amizades, tinha aulas interessantes na aliance française, um professor de piano bonito, não estava nem sonhando com o que vinha pela frente.
De repente, inspirados provavelmente nos alemães, se criou em Bucareste o que se chamava “a guarda de ferro”. Se vestiam como os SS, com roupas pretas, e durante uma semana fizeram com os judeus as maiores atrocidades que se pode imaginar.
Não vou nem contar pois até hoje me pergunto de onde saía tanta maldade sendo que os romenos sempre foram um povo gentil, brincalhão e de boa paz.
Pensando bem, acho que é bom eu contar um pouco para vocês verem o que eu passei com tão pouca idade.
Para se ter uma ideia das atrocidades, pegavam judeus na rua, levavam no abatedouro e penduravam vivos em ganchos de ferro e deixavam lá até morrer.
Foi uma semana de terror até que o governo se deu conta e prenderam todos eles.
Na época, eu deveria ter 13-14 anos, era ainda uma criança, mas hoje me pergunto se toda aquela época de pavor não deixou traços, que eu por força de ir para frente na vida, tentei fingir que aquilo foi um sonho ruim, um pesadelo.

Com a chegada dos alemães, as coisas pioraram.
O Presidente Antonescu teve a coragem de se impor e falar com o comando alemão: Com os meus judeus não vão mexer no meu país!!

Me lembro que na época se exigia muito dinheiro para pagar não sei a quem do governo, mas isto na realidade não tirou o pavor pois os alemães resolveram deportar os judeus de outras cidades ignorando o pedido do Presidente.
Meu marido me contou anos depois que na semana dos ”Guardas de ferro” prenderam um amigo dele e com toda a coragem dos 19 anos e o aspecto dele com olhos azuis e cabelo loiro tipo alemão, se vestiu de preto e foi libertar o amigo fingindo ser dos “Guardas de ferro”.
Durante os bombardeios o tipo de medo era diferente. Era uma questão de segundos entre estar vivo no abrigo, cair uma bomba no edifício e bloquear a saída com os destroços.

Falando em endorfina que aparece contando coisas agradáveis, comecei a escrever estas histórias às 4 da tarde.
Falando em alemães “Guarda de ferro” e bombardeios, às 6 da tarde minha pressão foi para 18!
E eu ainda acho que as coisas ruins que aconteceram comigo, consegui tirar da cabeça!
É só falar nisto e o corpo reage por mais que a cabeça diga NÃO.

A Romênia sempre foi um país muito rico, totalmente autossuficiente.
Tinha ouro, prata, ovelhas, bois; a agricultura sobrava para exportação, petróleo, sal e nunca faltou nada; os camponeses eram ricos.
As próprias mulheres deles usavam colares com 30-40 moedas de ouro, comiam bem e se vestiam com roupas lindas e caras, às vezes mandavam filhos até para o exterior para estudar.
Isto tudo até entrarem os Russos quando de repente pareceu sumir toda a riqueza de antes.
A gente fazia fila nas ruas para comprar cenouras ou outras verduras que antigamente acho que até os porcos estavam enjoados com a fartura.
Esta era a situação quando saímos da Romênia e quarenta anos depois quando fomos para lá como turistas ainda era a mesma coisa.
Como os Romenos sempre conseguiam por natureza transformar os problemas em coisas mais divertidas, faziam o que podiam para sabotar, dizer assim.
Nas fábricas de sapatos, por exemplo, botavam nas caixas 2 pés esquerdos e os que fabricavam ternos punham 2 mangas direitas dos dois lados.
Era muito pouco, mas não dava para grandes exageros.
Remédios, até hoje amigos que tem famílias lá me contam que recebem listas quilométricas com pedidos de remédios.

Conseguiram reduzir a zero um país rico, com belezas naturais maravilhosas.
Por exemplo, as montanhas ficam com muita honra ao lado das suíças (Falta só o chocolate). As cidades praianas com o mar calmo e quentinho, dá para avançar na água até um km com ondinhas até o joelho.
Tem lagos com água salgada aonde desaparece a gravidade; a gente não consegue se afogar de jeito nenhum.
A mentalidade dos Romenos em geral, eu compararia um pouco com os Cariocas, sempre brincando, amigos da boa comida e bons vinhos.

Resolvi escrever tudo isto porque muitas pessoas me falaram que eu praticamente não fiz comentários sobre o dia-a-dia do meu passado.
Escrevi as coisas que eu achava mais interessantes mas de vez em quando bate a lembrança daquela época, me dou conta da infância feliz que eu tive lá.

Voltando a Bucareste na época dos Russos, quando meu pai exportava cereais e foi proibido de trabalhar com isto.
Teve que explorar outras coisas para ganhar a vida.
Mas, como justificar o dinheiro que entrava?
Era moda na época, comprar moedas de ouro que se colocavam em esconderijos como no interior do piano ou na despensa num vidro de conserva.
Por que, com certeza vocês irão perguntar?
Era comum pelas 2-3 horas da madrugada aparecerem polícias para investigar verbalmente e botar a mão em todas as gavetas e buracos da casa, procurando moedas de ouro e dólares.
Como uma das lembranças que tenho até hoje, meu pai fez 2-3 rolos com moedas e colocou naquele vão da parede onde entra o rolo que levanta as persianas.
Ele fez com massa um segundo forro, recolocou as tiras da persiana.
Foram embora da Romênia e os rolos ficaram lá. Talvez estejam lá até hoje, se não derrubaram o edifício.
Quando contei esta história para meus netos a reação geral foi: Porque você não vai para lá pegar os rolos?
Imagina 60 anos depois, bater na porta do edifício na rua GOGU CANTACUZINO, 17 ap. 201 e se identificar como uma moradora do ano 1943 querendo abrir a parede para pegar uma fortuna, porque na realidade era uma pequena fortuna.
Falei para meus netos que era mais provável eles chamarem um hospício ou me darem uma paulada na cabeça para ficarem com as moedas.
O que vocês teriam feito? Tem resposta para isto?

Um diamante de 7 quilates que minha mãe deixou com uma irmã que colocou o anel na minha mãe e as joias dela num saco de farinha que estava na dispensa de casa.
Como naquela época por lei dos russos, em cada quarto da casa morava uma família, provavelmente alguém dos quartos achando que não vai fazer diferença pegar um pouco de farinha do saco, se deparou com uma trouxinha com as joias.
Não adiantava reclamar pois as pessoas que moravam junto eram colocadas pelos russos, até, diria eu, para controlar as ações dos proprietários.
Veio um belo dia no Rio, uma carta avisando a minha mãe que ela teve uma vez uma anel muito valioso!

Me lembrei de uma aventura (não sei como chamar isto) uns meses depois que casei, com toda minha experiência em termos de culinária, um dia numa peixaria (o que a gente faz numa peixaria?).
Comprei um peixe bastante grande me regalando de antemão de comer ele assado no forno. Qual não foi meu espanto quando peguei uma faca e na hora de limpar ele (em 1945 não era hábito de limpar os peixes na hora da compra.
Botei ele numa tábua, peguei uma faca e na hora que espetei, ele deu um pulo quase no teto. Acho que ele estava em coma ou alguma coisa parecida. Esperei quase 1 hora para ter certeza que morreu antes de pegar de novo.

Falando em morte, me lembrei de outra aventura:
Na época, eu com 19 anos tinha passado por muitos anos de terror mas na prática nunca tinha visto um morto.
Em 1945 quando nos casamos, meu pai comprou um apartamento que estava em fase de acabamento,
Faltavam poucos meses, de modo que o casalzinho tinha que morar em algum lugar.
Na época não existiam flats nem apartamentos mobiliados para alugar.
A solução era procurar um quarto durante alguns meses.
Saímos a procurar, eu e Oscar, com um jornal na mão pois como na época eram tempos difíceis, muita gente alugava quartos.
Nos chamou a atenção um anuncio diferente e numa avenida magnífica.
Acho que até hoje nunca vi um apartamento tão cheio de obras de arte.
Quadros, esculturas, lustres, bibelôs da mais alta classe.
O apartamento pertencia ao famoso escritor Eugen Ionescu que morava com a esposa em Paris.
Morava no apartamento uma senhora de 70 anos finíssima, sogra de Eugen Ionescu que tinha sido casada com um dos melhores jornalistas romenos.
O quarto que era para alugar era chiquérrimo com banheiro (era uma suíte) só que para sair do apartamento tinha que passar pela sala.
A vista do 5º andar era linda e a gente quase não ficava em casa.
Qual foi nossa surpresa quando um dia às 7horas da manhã alguém bateu na nossa porta - era o irmão da senhora - nos avisando que ela tinha falecido durante a noite. Tudo bem até aqui, só que na Europa naquela época se esperavam 3 dias para enterrar os mortos.
Nesta altura se colocava a pessoa muito bem vestida no sofá da sala aonde devia se passar para sair do apartamento.
A minha reação foi: Eu não vou sair do quarto!
Meu marido que durante os bombardeios tinha lidado muito com mortos tentou me convencer que eram 3 dias de espera. E eu teimando que não ia sair. No fim ele botou na minha cabeça uma toalha do banheiro, me guiou pela sala até a saída e nós dormimos três dias na casa da minha mãe.

Devem ter acontecido muitas e muitas aventuras mas nesta altura não me lembro de mais nada e nem quero obrigar meus leitores a ler coisas pouco interessantes.

Vou terminar com uma história que me faz rir até hoje, quando me lembro dela.
Em 1950 chegou no Brasil num domingo um tio meu com a mulher e um filho de 5 anos.
Era fevereiro, pleno verão no Rio, todos bronzeados. A família depois 5-6 meses de inverno europeu estava branca como a neve.
Lógico que no dia seguinte levei eles na praia, que adoraram.
Depois de alguns dias de eu acompanhar eles, minha tia e o menino foram sozinhos; a nossa rua saía diretamente na praia. Não havia como se perder.
Provavelmente a alvura dela chamou a atenção de um tarado que acompanhou ela na volta para casa.
Como todos que chegavam no Brasil sem saber qual ia ser o futuro, ela, distraída, nem percebeu que o tarado entrou junto no elevador.
Por ser tarado, nesta altura tirou o pinto da calça e numa hora que a tia se virou, a imaginação tomou conta e ela enxergou na mão dele uma FACA (uma coisa com a outra não se parece, acho eu).
Nesta altura o elevador já estava no nosso andar; ela saiu gritando e batendo na porta com os punhos, basta dizer que o edifício inteiro saiu na janela. Mas a polícia tinha acompanhado todo o tempo o tarado para ver o que ia acontecer.
Com a gritaria ele desceu no elevador e foi direto nos braços da polícia.
O mais engraçado de tudo foi ela brigando com o filho porque ele não tinha dito nada.
E o menino respondendo: Mamãe, eu tava dizendo o tempo todo: olha o titio com o pinto de fora!

O menino hoje tem 57 anos e mora em São Paulo mas cada vez que a gente se encontra damos uma risada por conta da primeira aventura deles no Brasil.
Pode ser que com o passar do tempo eu venha a lembrar mais fatos para contar.

Minha preocupação é não escrever nada que seja entediante para ler.

Mais uma vez obrigado a meus amigos e leitores que me incentivam o tempo todo para contar mais lembranças.

Espero que não bocejem durante a leitura.

Mioara

TRAVESSIA.

MIOARA HERESCU

 

TRAVESSIA



A historia do casal que atravessou a Europa a pé

Esta é a história da minha vida, uma pessoa comum que passou por situa- ções às vezes cômicas mas, na maioria, muito sérias e às vezes perigosas.
Muitos amigos aos quais eu relatei parte destes acontecimentos me aconselharam a escrever um livro que talvez faça meus netos e atualmente, meus bisnetos entender que a pessoa pode passar por problemas muito sérios e com tudo isto não ficar amargurada, nem com pena de si mesma; muito pelo contrário, conseguir relembrar com uma dose de ironia os momentos mais trágicos, transformando-os em cenas de verdadeira comicidade.
Voltando a quilometragem para trás, cheguei no ano de 1927 (eu com dois anos), quando a minha nítida lembrança é estar sentada num degrau do quarto de meus pais comendo um ovo duro. Será esta a explicação de meu atual colesterol? 
Nasci em Ploesti uma cidade na zona petrolífera da Romênia, uma vida muito cheia de lembranças boas.
Dizem que na idade avançada a gente se lembra melhor do que comeu aos dois anos do que jantou ontem.
É verdade, me lembro até do nome da rua e da empregada Ana que ficou muito tempo conosco.
A casa grande com jardim enorme com muitas flores, árvores e ratos que eu mesma abria a ratoeira, pegava o rato pelo rabo e o balançando orgulhosamente mostrava para minha mãe que só faltava desmaiar.
Alguns anos atrás (quero dizer em 2007) apareceu um ratinho aqui em casa e só me faltou subir em cima da mesa. Cheguei à conclusão que a coragem não aumenta com a idade.
Deduzo que eu era uma criança muito curiosa tanto que aos cinco ou seis anos, ganhei uma sandália linda e até hoje me lembro dela.
Provavelmente na minha ingenuidade e curiosa pelas qualidades do mundo, no dia seguinte, botei ela na porta da rua. Óbvio que na hora em que minha mãe perguntou por ela, respondi com toda a naturalidade que queria ver se alguém a levava. E levou...  
Com nove anos nos mudamos para Bucareste onde fiquei até os vinte e um anos quando, junto com meu marido Oscar (lembra o programa de televisão?), enfrentamos os dois anos mais perturbadores da nossa vida.
Ainda em Bucareste entre quatorze e dezoito anos aconteceu a segunda guerra mundial. Enfrentávamos bombardeios dia e noite sem saber se no dia seguinte estaríamos vivos ou mortos.
Foi uma época de ouro para os restaurantes pois como os bombardeiros de dia começavam às 9:00 horas da manhã, nós saíamos dos abrigos vivos e felizes por mais um dia de vida e íamos direto para os restaurantes para festejar.
Aos dezesseis anos conheci, em uma piscina, um gato loiro de olhos azuis que viria três anos mais tarde a ser meu marido e companheiro das aventuras que virão a acontecer. 
Em 1945 acabou a guerra e com isto os alemães que, junto com os romenos, lutaram contra a Rússia, foram embora e com isto o nosso terror em que vivíamos os últimos quatro anos com medo do campo de concentração, acabou. 
O povo romeno achou que, recebendo os russos com flores e música, teriam um futuro calmo e feliz. Não foi nada disto, ao contrário, vieram com muita raiva e sentimentos de vingança. Andavam atirando em pessoas na rua, sem motivo e sem escolha.
A parte cômica é que o exército deles vinha de quarenta anos de terrorismo e não sabiam nada do mundo. Desinformados, não sabiam nem como se vestir.
As russas loiras lindas tiravam o uniforme e se vestiam com longas camisolas de cetim, cheias de renda, para andar normalmente na rua.
Os estoques de sapatos de verniz preto com solas de papelão que eram vendidos normalmente para calçar os mortos, fizeram a festa dos soldados russos.
Nunca soube o que aconteceu na primeira chuva, nem o destino das lojas que os venderam.
Após algum tempo em que todos achavam que as coisas iriam se normalizar, começaram os verdadeiros problemas. 
Todos que na vida não eram operários ou que os pais trabalhavam como executivos ou coisa parecida eram considerados um perigo para o mundo socialista. 
Até que um dia um amigo nosso que tinha acesso a informações sigilosas nos telefonou avisando que era questão de dias para prender a minha família. Não eram propriamente processos aonde se podia se defender ou dar explicações. As sanções, acho eu, dependiam mais do humor dos que julgavam cada caso naquele dia.
 Fazendo um parêntese, no dia 18 de fevereiro de 1945 eu e meu amor finalmente e corajosamente resolvemos nos casar apesar das restrições como depois das 20:00 horas ser proibido andar na rua ou ter em casa mais de seis pessoas. Devia-se pedir uma autorização para eliminar o que eles achavam que poderia ser uma reunião com fins políticos.
 Era um inverno com frio terrível, não existiam carros a disposição. Então não me lembro como e quem, com altas relações políticas arrumou para nós, os noivos, um carro preto dirigido por um soldado russo. 
 Hoje me pergunto: A coragem que nós tivemos de entrar no tal do carrão, sem saber se nós iríamos à igreja ou ao cemitério. Pelo jeito era um russo bonzinho, senão quem escreveria todas estas lembranças?
 Fechando o parêntese, volto a outubro de 1947 depois do telefonema fatídico. Praticamente em vinte e quatro horas resolvemos deixar o país, coisa que era bastante comum na época,  entre pessoas que não possuíam um passado confiável com a atual conjuntura.
 Éramos casados a pouco mais de dois anos com o apartamentozinho aconchegadinho, bem arrumadinho e, como resultado, saímos pela porta cada um com uma maletinha pequena com uma muda de roupa e um sapato de reserva. Era tudo que se podia carregar na travessia da fronteira que era durante a noite e a pé pelos campos e sem saber se era durante duas ou dez horas.
 Procuramos em uma cidade perto da fronteira uma pessoa de confiança pois, devido a muita procura de gente que queria fugir, se criou uma turma de bandidos que, ao invés de atravessar, matavam as pessoas achando que tinham valores ou jóias pelo corpo.
 No fim tivemos sorte. Sorte esta paga com uma quantia considerável e, às duas horas da manhã do dia 2 de novembro de 1947, entramos, pelas próprias pernas e tropeçando em tudo que se podia através do campo no escuro como dizia, com as maletas na mão, na Hungria aonde pegamos um trem para ir à Budapeste.
Nós tínhamos um endereço seguro de uma pensão onde tinham mais refugiados como nós. Mas havia um certo perigo pois estávamos na zona russa e se descobrissem nossa identidade éramos mandados de volta sem explicações.
À primeira saída na rua, todos mudos com medo de falar romeno, paramos na frente de uma loja de “delicatessen”. Atrás de vitrine tinham dez tipos de presuntos e salames, fora os queijos, licores e vinhos; parecia o paraíso de um “gourmet”.
 E o cúmulo dos cúmulos foi uma loja aonde eu enxerguei uma coisa que na hora me pareceu uma jóia, um par de meias de “nylon” que, no momento, era o máximo que eu queria da vida. 
Do resto correu tudo normalmente e, na semana seguinte, organizaram nossa saída de Budapeste por uma associação que cuidava de refugiados chamados políticos. Passamos o resto dos dias cheirando e olhando coisas que pareciam de outro mundo.
Íamos para Viena na Áustria e, na noite fatídica do transporte, entramos em um caminhão e ficamos sentados no chão com a maletinha no colo e a lona do caminhão diretamente sobre nossas cabeças. 
Era um grupo muito grande que foi distribuído em três caminhões. Os dois primeiros passaram pelo ponto crítico sem problemas. O nosso foi parado, adivinhou aonde? Cochichando e espiando descobrimos com desespero que era na sede do partido comunista húngaro. 
Passamos por momentos de angústia sem saber o que o destino nos aprontava. 
Meu marido era do tipo que a preocupação o deixava com fome. Ele partiu um pedaço de pão preto duro, abriu uma lata de conserva e começou calmamente a comer. Do outro meu lado estava sentado um senhor lindo de cabelos brancos, todo nervoso com a situação e falou em voz baixa para o meu marido:
- Como nesta hora de desespero o senhor só pensa em comer?
Ao que meu marido respondeu, no mesmo tom de voz e com um olhar assassino:
- Se não calar a boca torço o seu pescoço.
 Este senhor Mário, que vou mencionar muitas vezes, veio a ser um dos nossos melhores amigos e fizemos praticamente toda a emigração juntos.
 Apesar de ter deixado na Romênia mulher e filho, acabou se envolvendo, entre outras aventuras tipo James Bond, com uma condessa italiana que jogou ele de cueca na rua, por o ter pego com outra pessoa.
No fim, libertaram nosso caminhão, pois estava nele um contrabandista que aproveitava e se juntava como refugiado, mas com uma lanterna super potente e, para nossa felicidade, reconheceram e tiraram-no da nossa companhia.
Quando falei da noite fatídica na saída de Budapeste, apesar de terem nos informado que estava tudo organizado com guardas de fronteira muito bem pagos para isto, a travessia foi feita por outro lugar e levou das 11:00 horas da noite até no dia seguinte às 10:00 horas da manhã. 
Quando chegamos à Viena, eu fui diretamente para um Pronto Socorro com um verdadeiro buraco no calcanhar. Imaginem quase doze horas de andar, em pleno campo, com os buracos, pedaços de árvores cortadas e muitas outras coisas para tropeçar.
Na época Viena era dividida em quatro setores: russo, americano, inglês e francês. Nós fomos colocados numa escola que tinha sido adaptada para abrigar bastante gente. Por sorte ou por azar, me deram uma cama de um beliche; aliás, todas as salas tinham beliches até o teto. Todo o dia de manhã, quando eu acordava, tinha balançando quase tocando minha cabeça um par de pés não muito bem lavados. 
Aliás, banhos em novembro, com frio, eram com água gelada. Eu, como sou friorenta por natureza, resolvi que o primeiro banho ia ser não sei e nem onde, mas com água fria não. 
Nossa escola era na zona americana mas alguém descobriu que na zona russa havia um verdadeiro palácio de banhos. 
De novo, mudos, saímos da escola rumo ao paraíso dos banhos onde ficamos o dia inteiro aproveitando os chuveiros e as piscinas com água quente. As necessidades de uma pessoa, dependendo do momento, criam uma situação de felicidade das coisas mais simples que normalmente passam desapercebidas no dia-a-dia.   
Falando em tragicômico, a saída de Viena para Salzburgo foi uma aventura única, até para quem viveu ela. Como sempre, um caminhão à noite nos deixou perto de uma estação de trem só que a estação estava embaixo e nós estávamos em cima de um morro. Não era o Everest, mas tinha bastante altura. Por sorte ou por azar, naquele dia não estava muito frio, de modo que a neve tinha derretido e se transformou num lençol de lama considerável. 
O morro, como todos os morros, estava cheio de árvores grandes, pequenas e muitos arbustos. Com toda nossa calma e energia tentamos descer pelas próprias pernas.  
Acabamos todos de traseiro no chão morrendo de rir. A conclusão foi que o único meio era continuar com a bunda no chão, escorregando na lama, em cima do casaco de camurça, com a bendita maletinha no colo. Quando tomávamos muita velocidade, o único meio de parar, era escolher uma árvore, abrir as pernas e procurar proteger as partes importantes.
Dá para imaginar a situação? 
Contudo isto e com a idade que a gente estava, até hoje me pergunto como cheguei lá em baixo, com a calcinha seca de tanto que a gente ria. 
Chegando na estação, achamos que o problema estava resolvido; faltava pegar o trem para Salzburgo. Naquela época, em qualquer lugar da Europa aonde tinha russos, quem como nós não tinha nenhuma identidade eram mandados de volta para a Romênia e premiados com vinte e cinco anos de prisão.   
A notícia na estação de trem era que passaríamos pelo controle dos soviéticos. Não me lembro como resolvemos a situação, só sei que chegamos livres ao destino. 
Com o último dinheirinho que tínhamos, fomos para um hotelzinho onde ficamos uma semana visitando obras e prédios históricos, aproveitando a beleza do lugar. 
Estava conosco o amigo Mário que mencionei anteriormente, aventureiro até o último dia. Às oito da noite quando chegou o guia que ia nos levar para a Alemanha, nosso companheiro foi comprar um maço de cigarros.
Encontramos com ele dois meses mais tarde em Paris. 
Naturalmente, como sempre, já acostumados a passar a fronteira a pé e pelos campos, não tivemos, por felicidade, nenhum contra-tempo. Sem o entusiasmo dos vinte e dois anos, aquilo que na época era um risco permanente, hoje com a maturidade, para não dizer idade, não deixa de ter um lado cômico.  
Chegamos a Munique de manhã e fomos encaminhados para um campo de refugiados onde passamos três meses esperando melhorar o frio em Paris que era nosso próximo destino e o final das aventuras. 
No  campo tinha uma cozinha; não vou ignorar a qualidade da comida, mas durante três meses comemos guisado com macarrão. Este era o almoço. O jantar era por nossa conta e lembramos o tempo todo o ditado que a fome é o melhor cozinheiro. 
Muitas semanas, por falta de dinheiro, fazíamos um belo sanduíche de pão preto duro com açúcar em cima. 
Não existe nada na vida mais importante do que o impulso e a juventude de ir para frente esperando, achar um dia, aquilo que nos fazia enfrentar aquela situação. 
Nos deram uma sala grande com oito camas. Eram sete homens e a Mioara. Apesar de tudo, foi uma época bem divertida. Os homens trouxeram para sala um piano de cauda e até hoje não sei como ninguém nos acusou de roubo. 
Um do grupo tocava jazz e o tempo passava de maneira bastante animada. 
No campo tinha um clube mantido pelos mais afortunados e uma noite nós fomos lá para ouvir música e ver a animação. Como ninguém de nós tinha dinheiro, aqui vou dar uma explicação. Na saída da Romênia se pegavam a gente com dinheiro eram vinte e cinco anos de prisão, de modo que nós levamos escondidas algumas jóias que tínhamos vendido pelo caminho. 
Voltando na noite no clube, os meninos pediram cada um uma cerveja. A tal da cerveja vinha num barril que dava para vários dias. O copo da cerveja foi negado por causa do vil metal. 
Na mesma noite, aliás, de madrugada, os meninos deram um jeito de entrar no clube e cada um fez xixi no barril. Na noite seguinte, naturalmente, os primeiros a entrarem no clube fomos nós para não perdermos os comentários ansiosamente esperados. Os primeiros a tomar acharam que tinha um gosto diferente e até cogitaram se não entregaram um barril velho. 
Estes momentos que para um leitor podem parecer sem graça até chocante, para nós que passávamos uma época muito difícil tinha um gostinho de vingança e ao mesmo tempo, uma injeção de esperança em dias melhores. 
Finalmente, chegou o mês de março e achando que o frio tinha acabado, começamos a procurar um meio de ir para a França. 
Apareceu um conhecido que fazia contrabando e prometendo levar para ele duas malas com a muamba, dizia conhecer a fronteira com a palma da mão. 
A travessia levou, pelo menos, quarenta e oito horas sendo que a primeira cidadezinha que chegamos na França, naturalmente e como sempre, a pé, cansados, com fome, sono e preocupados com a falta de conhecimento da fronteira do nosso conhecido. 
Entramos num pequeno restaurante da estação e os quatro desabamos em uma mesa. Com todo o cuidado de escolher uma época menos fria, naquelas noites estava muito gelado com neve na altura dos joelhos. Dentro do restaurante estava quentinho com um vago cheiro de perfume. 
Alguns minutos mais tarde chegou na nossa mesa um garçom com quatro canecas de “consommé”. Nós falamos que não tínhamos encomendado e que não tínhamos dinheiro para pagar. O garçom respondeu que pessoas de outra mesa tinham pedido aquilo para nós. 
Até hoje imagino nosso aspecto depois de passar frio, fome e sono. Foi o fato que impressionou uns estranhos a nos oferecerem uma sopinha quente que na hora nos pareceu enviada por Deus.
 A verdade é que aquele era um lugar aonde passavam muitos refugiados e aquele pessoal até hoje devem lembrar o que os motivou àquele gesto de caridade, posso dizer. Levantei e fui agradecer e, como uma pessoa muito forte que eu achava que era, voltei para minha mesa, botei a cabeça no braço e chorei, chorei e chorei. 
Pelas onze horas da noite, com toda a confiança e afirmativa de nosso amigo que a fronteira não tinha segredos para ele, paramos em um acampamento militar aonde tinha um cartaz enorme com ameaça de vida para quem entrasse lá.      
 O acampamento era perto de uma estação de trem, aonde a gente devia pegar a meia noite um trem para Paris. Procurando no escuro e com neve alta, esgotados e com medo pelas nossas vidas, vimos de longe o trem passar. 
Sair do campo estava se tornando um drama. Pelas duas horas da manhã, apareceu de longe um grupo de pessoas se aproximando. Mandei os três amigos se esconderem e comecei a chamar o grupo que ficou pasmo quando me viu sozinha de madrugada pedindo ajuda. Me fingi de bêbada dizendo que o acompanhante tinha me largado sozinha e procurando o caminho acabei entrando no campo. 
Meu francês é muito bom mas, pelo sotaque perceberam na hora que eu não era francesa. Como falei antes, aquele era um ponto onde eles sabiam que muitos refugiados passavam e me perguntaram na hora se a bebedeira não era uma desculpa. 
Assumi no mesmo momento e eles nos orientaram como sair do campo. 
As três da manhã chegamos na pequena estação que, naturalmente, estava fechada. Brincando, apesar de desespero, achamos que a solução era construir um iglu. Neve tinha em quantidade para levantar um edifício, mas Deus existe e de repente apareceu um guarda com as chaves. Abriu as portas para nós, acendeu um fogareiro e nos deitamos em uns bancos de madeira que na hora não teria trocado nem por uma cama de plumas.
 Nos virávamos o tempo todo porque o lado que não estava virado para o fogareiro ficava congelado. Foi uma noite memorável e às dez da manhã finalmente pegamos o trem para Paris. 
O trem estava repleto e eu nunca imaginei que podia dormir em pé. Encostei no meu marido, não sei por quanto tempo, até que uma pessoa muito gentil nos cedeu um lugar. Sentei no colo do Oscar e peguei no sono na mesma hora. 
A entrada em Paris para nós foi um triunfo maior do que a entrada do Napoleão. Eu, com o mesmo casaco que tinha escorregado na lama, tirei da maleta uns sapatos e, com as botas envoltas num jornal rasgado, entramos em um dos hotéis mais caros de Paris que pertencia a um parente meu. 
Os porteiros estavam avisados da nossa chegada e, muito solícitos, com um carrinho perguntaram pela nossa bagagem. Provavelmente eles devem ter achado que os parentes do dono eram de profissão mendigos ou alguma coisa parecida. Com toda razão depois de noites sem dormir, sem comer e todas as aventuras que contei, só podiam achar isto. 
Ficamos só um dia neste hotel por causa de nossa situação como refugiados. Íamos perder o apoio financeiro e logístico se soubessem que tínhamos parentes ricos na cidade. 
Pela primeira vez, em quatro meses, sem ter identidade fomos levados para a prefeitura aonde nos deram umas carteiras provisórias para ter direito a cupons de alimentação sendo que na época, a situação na França ainda era muito crítica.
Com o pouco dinheiro que eles davam, fomos para um hotelzinho num dos pontos mais famosos de Paris. Na frente do cemitério Père Lachaise aonde eram enterrados famosos como artistas, escritores e muitas outras personalidades. O hotel, como a maioria dos pequenos hotéis de Paris,  alugava quartos por hora para casais apaixonados. 
Pelos buracos das paredes, descobrimos que não havia tijolos; o forro era feito de uma espécie de palha que não era a prova de som. Obviamente a gente se divertia ouvindo os ais e uis vindos do quarto ao lado. 
Sem carteira de trabalho era difícil arrumar emprego e os dois meses que nós recebemos ajuda financeira passaram rápido. Meu marido arrumou um emprego numa loja de roupas para homem. 
Ele ficava num balcão em cima, aonde tinham pendurados, por cores e números, centenas de ternos. Os vendedores gritavam de baixo:
- “Me alcança um terno marrom esportivo número 52.”
Ele achava aquilo deprimente, mas a gente tinha um péssimo hábito que era o de comer quando se estava com fome. 
Eu, por meu lado, raspando os últimos francos, comprei uma máquina de costura de pedal dura no funcionar, descascada, mas costurava. Entre os refugiados corriam notícias de fábricas que davam lençóis ou guardanapos para fazer bainhas. Com um pouco mais de dinheiro nos mudamos para um hotel melhor, aonde tinha uma pequena cozinha e lá ficamos durante o resto da estadia em Paris. 
No meio de todos os problemas financeiros e morais apareceu nosso excêntrico amigo Mário com uma proposta que iria resolver todos os nossos problemas e nos deixar ricos em pouco tempo. Era para ele e meu marido serem espiões no Egito. Primeiro, achamos que era uma piada mas, maluco como ele era, falava sério. Eu achava que nenhum dos dois tinha aptidões tipo James Bond e, em vez de liberdade e dinheiro, íamos acabar, na melhor das hipóteses, numa prisão no Egito e esperar manter nossas cabeças no pescoço pois, sempre para a espionagem, o perdão vinha através de vinte atiradores e uma parede atrás da gente. 
Uma das aventuras mais improváveis de acontecer aconteceu comigo. Parentes nossos da Paris que antes da guerra, no mundo da música, tinham relações com altas personalidades inclusive ministros, me perguntaram se eu além de fazer bainhas em lençóis poderia fazer conserto nas roupas de uma ministra. Nesta altura, com as necessidades que nós passávamos no momento, eu teria afirmado que sabia até fazer safáris na África. 
Por conta da minha afirmação veemente sobre capacidade em costura me marcaram um dia para ir lá. Era uma personalidade muito importante, morava num palácio na zona mais chique de Paris, mas no momento estava viajando. Quem me recebeu foi uma governanta encantada com o fato de eu falar francês. Me fiz passar por momentos interessantes, divertidos e às vezes preocupantes. 
Na portaria da casa, me recebeu um porteiro com um uniforme de gala que acho que era uma cópia fiel com que Napoleão usava em momentos importantes. Voltando à governanta, tão encantada de conhecer uma romena fugida de um país comunista, me deu uma atenção excepcional. 
Primeiro, nada de fazer bainhas na roupa da ministra. Na mesma hora abriu uma lata de caviar, um champanhe, torradinhas enquanto eu tentava comentar a história da minha fuga. Depois do aperitivo, me levou  no closet da madame que era de um tamanho impressionante. Primeiro nós vimos os duzentos se não mais vestidos de todas as cores, grifes, tamanhos, etc. Depois abriu outras portas aonde estavam os casacos de pele, do bolero até o tornozelo, todos, naturalmente, das peles mais caras e raras. 
Neste momento, passei da euforia para um momento de pânico. Achei que só faltava abrir o cofre para me mostrar as jóias da família. Até pensei que, todo aquele fato de me mostrar roupas e peles, fosse uma preparação para o passo seguinte. Felizmente, nada mais aconteceu. Finalmente almoçamos com vinhos e, provavelmente, alguma coisa  com os famosos molhos franceses. 
Nesta altura já eram quase três horas da tarde e as bainhas estavam esperando. Ela me disse que sabia costurar muito bem e ia me ajudar e, de fato, às quatro horas estava tudo pronto e eu recebi uma bolada de dinheiro. Saí de lá me beliscando para saber se eu tinha sonhado com tudo aquilo.
O tempo estava passando e, como nossa intenção era sair da Europa, começamos a procurar países que admitiam pessoas com a origem duvidosa por conta do atual regime da Romênia. Nada disso era nossa culpa, mas era difícil provar, mesmo tendo deixado o país. O mundo achava que nós podíamos ser mandados para outros lugares com o intuito de, futuramente, virar informantes dos soviéticos. 
A primeira opção foi Austrália. Descartamos logo pois nossa esperança era de um dia reencontrar nossos pais e achando que geograficamente sendo muito longe a distância, seria um impedimento. A segunda opção foi Canadá. Maravilhoso, diriam todos vocês, só tinha um pequeno senão: os primeiros dois anos ficaríamos no extremo norte do país para meu marido que tinha o biótipo adequando para cortar árvores de grande porte. Eu, que sempre fui uma grande friorenta, fiquei gelada só de me imaginar morando numa cabana de madeira, óbvio, com um fogão a lenha, uma chaleira com água quente esperando a volta do marido cansado, com calos na mão por falta de prática, sendo que ele era um universitário de família abastada. 
Abortamos Canadá e ficamos esperando outras chances. De repente, um calafrio positivo no pequeno grupo de romenos em Paris: o Brasil abriu as portas para imigrantes. No dia seguinte estávamos lá e, por muita sorte, a secretária era filha de um adjunto que tinha estado na Romênia em certa época. Isto gerou uma onda de simpatia e, com o máximo de gentileza, procuramos juntos o que o Brasil mais precisava na época. 
Na realidade a classe A não interessava; necessitavam de mão de obra especializada em vários setores. Olhando na lista vimos que eram necessários aqueles que entendiam de couros. Nos prontificamos na hora de trazer papéis que comprovassem nossas especialidades. Num dos grandes hotéis de Paris, em um banheiro muito chique, tinha alguém que fornecia todo o tipo de diploma, acho que conseguiria provar até que meu marido podia ser indicado para um prêmio Nobel. Ele arrumou um atestado de como Oscar tinha grande experiência como curtidor de couro, o que era muito procurado no Brasil. 
Eu, por meu lado, era uma técnica em segredos de lavanderia. Como tirar manchas especiais e em produtos de lavar a seco. 
Assim nós conseguimos nossos vistos e começamos a procurar o melhor modo de chegar no Brasil. Não havia muita escolha. No final, quem organizou e pagou nossas passagens foram os mesmos que coordenavam os transportes dos assim chamados, refugiados políticos. 
Num belo dia de março, nos comunicaram que íamos para Marselha embarcar num transatlântico que era mais para barco do que o título pomposo de trans. Chamava-se Campana e era a última viagem, acho que, na volta para França, iriam botá-lo em um ferro velho, amassar e vender para fazer latinhas de Coca Cola. 
Nossa cabine particular era para nós dois e mais trezentas pessoas na primeira classe, começando do fundo do navio. Depois de ver nossos beliches não precisamos mais do que cinco minutos para decidir passaríamos os próximos nove dias que levava a viagem no convés olhando as ondas do mar de dia e as estrelas à noite. 
Durante toda a viagem o almoço era macarrão com guisado coisa que até hoje me lembra a minha falta de entusiasmo na hora que tocava o sino para comer. Meu marido que adorava massa, saiu de Marselha com oitenta e dois quilos e chegou ao Rio com noventa quilos. 
A hora do banho foi uma das coisas que mais me divertiu, se posso chamar assim. Havia muitos camponeses espanhóis que, traziam junto, um século de atraso. Eu e mais cinco romenas, imigrantes mas de classe alta, na hora do banho que era privativo para dez pessoas, sem pensar muito, tiramos as roupas e, lógico, nuazinhas fomos para os no chuveiros. As camponesas, com os mesmos vestidos pretos até os tornozelos que embarcaram, tinham na mão um pano molhado e ensaboado que, por baixo da roupa lavavam provavelmente até onde a mão alcançava. 
Ficamos sabendo mais tarde, por uma pessoa que nos contou rindo, que elas achavam que nós as romenas na realidade éramos prostitutas em viagem para o Brasil para exercer nossa atividade rotineira. 
Assim e assado, passamos os nove dias. Não posso esquecer a parada na África, uma noite de calor infernal, que nós todos achamos que iríamos ver um pouco de civilização. Não sei como os outros barcos foram recebidos. Faltou entusiasmo, faltou gente e nós, apesar de estarmos acostumados a atravessar os campos à noite, como não vimos nem um cachorro, até um leão, nesta altura, seria bem vindo. 
Fiquei me perguntando se aquilo era a realidade ou a nossa imaginação tinha criado aquele vazio deprimente. 
Em compensação a chegada no Rio foi emocionante. Com todo nosso medo do que o futuro nos reservava, a vista do Rio à meia noite, com as luzinhas maravilhosas da cidade. A baía era um sonho que tornaria realidade todas nossas aventuras para chegarmos a momento.
O navio devia estar em melhores condições do que eu pensava pois, apesar de todo mundo num lado da ponte, ele resistiu e não virou, como anos mais tarde, durante o Reveillon, aconteceu aquela tragédia.
Era este o momento que representava um começo de vida, quase um renascimento.                  
 Foi a última noite a dormir no convés e, no dia seguinte, não me lembro a data exata, em março, amigos dos meus pais nos esperavam no cais. Eles tinham saído da Romênia bastante tempo atrás pois tinham um tio rico e muito bem relacionado no Rio. Me lembro que um dos amigos íntimos era JK.
Depois dos abraços e um pouco de lágrimas da parte feminina, a organização nos botou nuns táxis. Éramos ao todo quinze romenos entre mulheres e homens. Fomos para um hotelzinho na Lapa que era vizinho de um Pronto Socorro aonde a cada cinco minutos chegava ou saia uma ambulância e a sirene era exatamente o mesmo som que durante os bombardeios anunciava a chegada dos aviões em cima de Bucareste. Ao ouvir aquele som me transportei psicologicamente na época e que na hora de ouvir a sirene a gente pulava da cama para correr nos abrigos. Tive uma conversa muito séria comigo e me falei: Você está no Rio de Janeiro, milhares de quilômetros longe da guerra. Assim mesmo custei a me convencer até que nós e mais um casal imploramos ao dono do hotel para nos alojar na outra ala para ficar um pouco mais longe das ambulâncias.
Intimidades dos casais ficaram para um futuro próximo pois durante a travessia do Atlântico, meio que nós tínhamos uma vaga lembrança que uma vez na vida existia um quarto, com uma cama no escuro, sem gente à nossa volta.
Apesar de nossa juventude talvez o fato de falar outras línguas tenha nos atrapalhado um pouco e nos fazer entender pelos outros se tornou um problema muito sério. Uma das primeiras frases que eu aprendi era quando alguém me dizia alguma coisa que eu não entendia, repetiam gritando achando que eu era surda, aos quais eu respondia: “eu sou estrangeira e não surda”. Na hora me dava um pequeno desespero mas, como eu escrevi antes, em poucos meses tudo entrou no normal.
 Tivemos que reaprender a falar quase como os bebês que aprendem todo dia uma palavra nova.
Eram novos hábitos, mentalidade diferente. Tínhamos que esquecer aquilo que achávamos adequado durante os primeiros vinte e dois anos e pensar e agir nos adaptando a viver num país jovem, sem as regras às vezes rígidas de uma Europa com milhares de anos de passado. 
Por sorte nós, o casal, éramos pessoas muito flexíveis e depois das aventuras da travessia, achamos aqui o paraíso. Calor, muita gente jovem e bonita, frutas tropicais e carnaval. 
Mais que isto seria exagerar, querer demais da vida.
 Ficamos um mês no hotel pago pela organização. Neste meio tempo aconteceram coisas mais que cômicas como por exemplo: 
Na primeira noite do hotel na Lapa, eu e meu Oscar, entramos numa lanchonete e, na linguagem universal do dedo, apontando, pedimos dois iogurtes. 
Eu sempre achava que vivendo num país a primeira coisa é procurar aprender, quanto mais rápido possível, a língua. 
Me baseando no fato de meus pais de origem espanhola falavam as vezes em casa numa língua chamada sefaradi, muito parecida com o português, sendo língua latina. 
Perguntei na expectativa que o garçom ia entender minha pergunta:
- Como se chama isto? Ele prontamente respondeu:
- Mais.
Na hora eu achei que iogurte, em português, se chamava mais. Meu marido querendo simplificar as coisas levantou quatro dedos pois nós tínhamos convidado o casal com quem compartilháramos o quarto e pediu em voz alta e clara:
- Quatro mais.    
O garçom que era o mesmo da outra noite prontamente perguntou:
- Mais café, mais coca cola e mais não sei o que. O dono da lanchonete, um português bem vivo, deve ter se dado conta da expressão do garçom pois chegou na nossa mesa, pegou meu marido pela mão e levou até o balcão ande perguntou:
- O que? 
Meu marido apontou e o dono falou: Isto se chama iogurte. Quando Oscar chegou na mesa rindo e contou o nome que em romeno se chama iaurt chegamos a conclusão que toda vez que queríamos alguma coisa nós devíamos tentar primeiro em romeno. 
A base de muitas risadas, aprendemos aos poucos que nem tudo que nós achávamos ser a palavra certa era certa mesmo. 
Por exemplo: Cada vez que alguém espirrava, eu feliz, desejava em voz bem alta e clara saudade. Nunca entendi porque as pessoas em vez de dizer obrigado davam uma risada e com toda boa vontade explicaram que a palavra era saúde e não nostalgia por alguma coisa do passado. 
Como eu nunca na vida me sentia perseguida ou coisa parecida, levava tudo na brincadeira procurando falar errado com todos os erros que eu fazia, mas falar. Tanto que no mesmo ano, em setembro, já podia me fazer entender e assimilar cada vez mais palavras novas. 
Posso dizer que na época a Seleções foi uma espécie de aula para mim. Deduzindo por algumas palavras que eu conhecia, aprendia trechos inteiros de cada vez. O melhor curso de línguas é o que eu chamo de a escola da vida. 
Aventuras como a história do iogurte aconteciam o tempo todo; podia dedicar um livro inteiro a situações uma mais cômica que a outra. Mas vamos correr um pouco no tempo pois a paciência dos meus leitores pode se esgotar.
Vou contar nosso começo no Rio.
Na vida, o papel dos amigos pode ter uma importância muito grande.
Mencionei antes que amigos dos meus pais, aqueles que nos receberam no porto, estavam numa situação econômica bem boa. Eles abriram os braços procurando nos orientar com os hábitos e sistema de vida no Brasil.
Achamos um pequeno apartamento que um casal, que queria voltar para a Alemanha, nos passou um bom contrato por U$ 1000,00 que nossos bons amigos nos emprestaram lembrando que juntos e por causa do meu pai, ganhavam muito bem em Bucareste. Acabaram nunca pedindo o dinheiro de volta. Para nós, na época, U$ 1000,00 representava uma fortuna que a gente custou a ganhar. 
O apartamento era em Ipanema, que viria ser mais tarde, um dos melhores bairros do Rio. Tinha no apartamento que se chamava mobiliado uma cama turca que caía quando a gente sentava.  Faltava um pé, um colchão inadequado mas para quem dormiu até em banco de madeira, não deixava de ser um colchão. Tinha uma armário pequeno, uma mesa e duas cadeiras. Mas tinha a coisa que mais importava no momento: uma geladeira e um fogão. 
Em princípio podia começar a cozinhar no dia seguinte, se não houvesse um grande impedimento. Tudo o que a gente tinha trazido de Paris eram dois garfos e duas facas e duvido que tinha alguma colher. 
O casal alemão tinha levado tudo que podia; não tinha nada na cozinha. 
Sem pensar muito, acostumada na Romênia a ter tudo que precisava, convidei nosso casal de amigos e o tio amigo íntimo de JK para jantar. 
Na manhã do dia seguinte, caiu a ficha como se diz. Quando me dei conta que não tinha toalha, nem pratos e o resto, minha primeira reação foi sentar na cama e chorar. Mas como futura gaúcha valente que viria a ser vinte anos mais tarde, me endureci e falei comigo mesma: - Coragem, você é a mesma pessoa que sempre foi com pratos ou não. 
Fui à luta em seguida. No térreo do nosso edifício, tinha uma loja de tecidos de um turco muito gentil. Nas vinte palavras que era todo o meu vocabulário na época, pedi para ele me dar o tecido branco mais barato que tinha na loja.
Pensando nas toalhas de linho bordadas que deixei na Romênia, comprei um tecido de lençóis que foi a primeira grande compra que eu fiz no Rio. Mais cinco pratos baratinhos mas bonitinhos, cinco copos, mais três talheres, botei flores na mesa e recebi eles como se aquele jantar fosse uma coisa comum na minha vida. 
Aos pouquinhos e com muito trabalho começamos a complementar as coisas necessárias. Meu marido tinha começado a trabalhar logo e eu vou contar mais tarde o que umas aulas de costura que eu tinha feito com dezesseis anos representaram na minha vida. 
Primeiro vou relatar que depois de uma semana de trabalho, todos os sábados de tarde íamos na praia do Arpoador que era bem perto da nossa casa. Animados por ver gente pescando arrumamos não sei de onde, um pau comprido com um barbante na ponta e como isca, pedacinhos de carne. Fomos nós, os dois patetas, numa tarde linda pescar com o pau e a sacolinha de carne nas famosas pedras do Arpoador. 
Mal nos acomodamos e jogamos a isca começamos a ouvir gritos vindos da rua da praia e, provavelmente, também do nosso Santo protetor. Era hora da maré em que começavam a vir grandes ondas que praticamente varriam tudo que estava em cima das pedras. 
Pelo tamanho da gritaria e gesticulação das pessoas ficamos nos perguntando qual era a lei que estávamos infringindo. Descemos e meia hora mais tarde assistimos ao magnífico espetáculo das ondas gigantes cobrindo as pedras. Era de fato uma coisa maravilhosa de se ver e por sorte nós saímos a tempo de lá.                              
Um ano depois, tivemos a felicidade de trazer ao Brasil nossos pais que se adaptaram muito bem apesar da idade e da situação monetária da família que era das mais críticas. Mas acho que o otimismo era genético pois senão como explicar que eles só viam as coisas boas da situação. Mais um ano ou dois começamos a pensar em filhos que chegaram pouco depois com intervalo de mais ou menos dois anos. Foram filhos maravilhosos. Nos mudamos no primeiro ano para o Leblon, compramos móveis, carro, e entramos numa vida mais perto do que vínhamos sonhando há anos. 
Os últimos quinze anos moramos de novo perto do Arpoador e perto da praça General Osório aonde meus filhos passaram grande parte da infância. No ano de 1970 meu marido foi nomeado diretor de uma fábrica no RS e nos mudamos para cá com toda a tralha e um monte de lembranças boas.
Começamos a fazer amizades aqui. A nossa história da vida interessava muito e sempre às pessoas. Depois de cinco minutos de conversa vinha e, até hoje, as perguntas são as seguintes: Qual é a sua origem? Quando e porque vieram para o Brasil? Em que ano? E assim por diante. Estou acostumada a concentrar nossa história se não vocês que leram meu livro imaginam as horas que duraria contar a metade das aventuras. 
Uma coisa divertida que eu preciso contar dado ao fato que entre Rio e POA, apesar da distância não ser tão grande, os sentidos das palavras criam situações realmente cômicas. Uma das primeiras que não esqueço, é um dia procurando por um anel que eu não achava, perguntei a moça que trabalhava conosco se ela não tinha visto o tal. Me respondeu na hora que estava no bidezinho. Meio admirada fui para o banheiro, olhei no bidê que teria sido o último lugar aonde eu colocaria o anel. 
Voltei dizendo para ela que não achei e na hora me levou para o meu quarto e, no que eu chamo mesinha de cabeceira, estava o meu procurado anel. Vai adivinhar e como que em POA mesinha é bidezinho. 
Outra que vale a pena contar é uma amiga nos convidou num sábado a noite para jogar cartas e, ao mesmo tempo, me contou toda animada que tinham comprado de manhã um terno de veludo vermelho. Pensei na hora, no aspecto do marido que era bastante jovem e bem apessoado mas assim mesmo não conseguia imaginá-lo vestido de veludo vermelho. 
De noite, na hora de entrar no apartamento, a primeira coisa que ela fez foi nos levar para a sala e mostrar orgulhosamente o conjunto de sofá e poltronas, adivinhe logo a cor e tecido dos móveis. Na hora tive um ataque de riso e contei para ela a imagem que eu tinha feito do marido dela em traje de gala. 
Coisas assim aconteceram o tempo todo. Como eu que gostava da tal carne chamada maminha de alcatra, assim que cheguei a POA, na primeira ida ao supermercado, pedi com toda a naturalidade a maminha. Me responderam que não conheciam tal carne, eu tentei explicar até por gestos que o formato da maminha parecia um triângulo. Não sei direito se ele sabia o que era um triângulo, pois continuou me dizendo que não conhecia nem de nome. A coisa se repetiu durante um ano eu pedindo e eles me respondendo que aqui se cortava a carne diferente e que devia ter outro nome. Comecei a perguntar à todo mundo até que uma amiga me disse que aqui chamavam de chapéu de bispo. Ninguém acredita hoje quando eu conto, mas juro que é verdade. Fui correndo no super e desta vez esperando que vão me atender sem problemas pedi 1kg e meio do chapéu de tal. O rapaz muito gentil me disse: - A senhora sabe que muita gente chama isto de maminha de alcatra? Ele deve lembrar da minha cara até hoje, tal foi minha expressão de espanto e ao mesmo tempo de contentamento. 
A outra coisa que me persegue até hoje é quando entro numa padaria e peço cinco pãozinhos, não consigo dizer a palavra que todos conhecem aqui. 
Olhando para trás me dou conta que na vida não somos nós que fazemos as coisas acontecer. Tudo já é predestinado, acontecem uma após as outras para o bem e às vezes não tão bem. 
 Agradeço ao meu destino que sempre me guiou da melhor maneira, tanto que me botaram no caminho daquele que foi meu companheiro, amor e apoio em todos os momentos. A nossa vinda para o Brasil não foi propriamente nossa escolha pois como escrevi, recusamos outros países para no fundo aparecer o Brasil que nós decidimos que seria bom para nós. 
Sempre considerei que alguém que sabia de tudo, que viria no futuro, nos guiou indiretamente para cá. Aqui realizamos nossos sonhos, trabalhando muito e, às vezes duramente para isto, mas a gente não recebe nada de graça neste mundo; tem que fazer por merecer. 
Ajeitamos nossa vida aqui. Deus nos deu tudo que uma pessoa quer neste mundo. Me deu um companheiro para todos os momentos, me fez mãe, avó de quatro netos lindos das minhas noras gaúchas e, a maior benção que eu poderia pedir, ter a felicidade de ter dois bisnetos. 
Estou cansada de afirmar para todos que se queixam de pequenos problemas que nesta idade ficar de pé e respirar já é muito, o resto são presentes da vida e quem não se der conta disto perde o prazer de apreciar um céu azul, as árvores lindas e muitos motoristas gentis que param o carro e acenam para a gente atravessar a rua. 
Os bons amigos que valem tanto quanto os parentes e aos quais eu agradeço o impulso pelo interesse que mostraram pela história da minha vida que nunca me pareceu tão empolgante como eles me fizeram acreditar. 
Dedico este livro a todas as pessoas que me amam, a quem eu também amo.
A vida é linda.
Valeu a pena cada momento. 

Termino desenhando uma flor e dizendo paz e amor.