quarta-feira, 9 de março de 2016

Mais algumas lembranças

Muitos, mas muitos amigos me pediram que eu escrevesse mais sobre minhas lembranças achando que eu passei muito por cima e que devo ter mais coisas interessantes para contar.
Na realidade, eu considero aventuras os fatos que aconteceram entre meu nascimento e os 22 anos quando fugimos da Romenia.

Naturalmente perto das aventuras da travessia talvez não parecem tão importantes, mas a época entre 14 anos e o fim da guerra não foi menos grave que a emigração.

Me pediram para dar mais enfoque a nosso começo no Brasil.
Se eu não escrevi muito sobre isto, é pelo fato que na realidade as dificuldades não foram tantas e tão complicadas quanto a gente estava esperando.
Pode ser que depois de passar uma guerra e uma emigração estávamos vacinados pelo resto da vida contra maiores problemas.
Então, como me pediram para contar quantos mais acontecimentos eu pudesse lembrar, aqui vão mais algumas lembranças.

Começando, no dia 05 de agosto de 1925 quando a “ subsemnata” fiz tudo para não vir ao mundo.
Não sei porque até que a minha vida com tudo que passei não foi tão ruim, ou então, eu esperava nascer na corte da Inglaterra para ser no mínimo uma Princesa.
Depois de incomodar muito minha mãe no parto, parece que fui uma criança muito boazinha.

Detalhes entre os 2 e 9 anos escrevi na outra história.
Não me lembro nada muito importante ou grave que valha a pena relatar.

Quanto mais a gente mergulha no passado mais lembranças aparecem.
Cada vez que pego numa panela de pressão dou uma risada, pois vem na minha mente uma história muito engraçada.

Em 1947, ano que chegamos no Brasil, pelo que me lembro ainda não existiam panelas de pressão.
Possivelmente, alguém do Rio que tinha parentes em Paris pediu para mandar por alguém que vinha para cá, uma destas panelas.
Casualmente, a pessoa de Paris nos conhecia muito bem e fez para nós um pedido que aceitamos com toda a gentileza.
Na primeira semana no Rio, apesar da enorme dificuldade com a língua, que tornava nossa locomoção um problema enorme, nos informamos na Lapa, onde era nosso hotel, como chegar a Ipanema, bairro totalmente desconhecido para quem estava apenas há uma semana no Rio.
Pegamos um bonde, perguntamos a várias pessoas com medo de não achar a rua e, finalmente, descemos do bonde com a bendita panela na mão.
Subimos no apartamento do parente e tocamos a campainha.
Naquela época não existiam ainda os “olho mágicos”. Na porta tinha uma janelinha de vidro, que se abriu e apareceu um senhor que olhou para nós com um sinal de interrogador.  Falamos em Romeno pois era a língua dele também, que chegamos de Paris.
Não deu tempo para dizer mais nada pois ele pediu para esperar um minuto.
Fechou a janelinha e voltou minutos depois com uma nota que hoje em dia eu diria de R$ 10, dizendo que infelizmente não podia dar mais.
Tudo isso através da janelinha sem ao menos abrir a porta do apartamento.
Nós ficamos chocados e ofendidos com tamanha indelicadeza e na mesma hora, sem falar mais nada, meu marido pegou a nota e nós fomos embora COM A PANELA.
Ele não ficou sabendo de nada pois não nos deu a chance de explicar o motivo de nossa vinda.
Nós aproveitamos muito bem a panela e cada vez que eu pegava nela dava uma risada pensando na cara que o parente do Rio deve ter achado quando algum tempo depois o de Paris estranhando a falta do agradecimento deve ter ligado para ele e toda a história veio à tona.
Por semanas, o cara do Rio se informou sobre nós pois ele nem sabia nosso nome.
Quando nos achou, nos inundou de desculpas mas nunca mais viu a tal da PANELA.

Bem feito, não achou?

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