quarta-feira, 9 de março de 2016

TRAVESSIA.

MIOARA HERESCU

 

TRAVESSIA



A historia do casal que atravessou a Europa a pé

Esta é a história da minha vida, uma pessoa comum que passou por situa- ções às vezes cômicas mas, na maioria, muito sérias e às vezes perigosas.
Muitos amigos aos quais eu relatei parte destes acontecimentos me aconselharam a escrever um livro que talvez faça meus netos e atualmente, meus bisnetos entender que a pessoa pode passar por problemas muito sérios e com tudo isto não ficar amargurada, nem com pena de si mesma; muito pelo contrário, conseguir relembrar com uma dose de ironia os momentos mais trágicos, transformando-os em cenas de verdadeira comicidade.
Voltando a quilometragem para trás, cheguei no ano de 1927 (eu com dois anos), quando a minha nítida lembrança é estar sentada num degrau do quarto de meus pais comendo um ovo duro. Será esta a explicação de meu atual colesterol? 
Nasci em Ploesti uma cidade na zona petrolífera da Romênia, uma vida muito cheia de lembranças boas.
Dizem que na idade avançada a gente se lembra melhor do que comeu aos dois anos do que jantou ontem.
É verdade, me lembro até do nome da rua e da empregada Ana que ficou muito tempo conosco.
A casa grande com jardim enorme com muitas flores, árvores e ratos que eu mesma abria a ratoeira, pegava o rato pelo rabo e o balançando orgulhosamente mostrava para minha mãe que só faltava desmaiar.
Alguns anos atrás (quero dizer em 2007) apareceu um ratinho aqui em casa e só me faltou subir em cima da mesa. Cheguei à conclusão que a coragem não aumenta com a idade.
Deduzo que eu era uma criança muito curiosa tanto que aos cinco ou seis anos, ganhei uma sandália linda e até hoje me lembro dela.
Provavelmente na minha ingenuidade e curiosa pelas qualidades do mundo, no dia seguinte, botei ela na porta da rua. Óbvio que na hora em que minha mãe perguntou por ela, respondi com toda a naturalidade que queria ver se alguém a levava. E levou...  
Com nove anos nos mudamos para Bucareste onde fiquei até os vinte e um anos quando, junto com meu marido Oscar (lembra o programa de televisão?), enfrentamos os dois anos mais perturbadores da nossa vida.
Ainda em Bucareste entre quatorze e dezoito anos aconteceu a segunda guerra mundial. Enfrentávamos bombardeios dia e noite sem saber se no dia seguinte estaríamos vivos ou mortos.
Foi uma época de ouro para os restaurantes pois como os bombardeiros de dia começavam às 9:00 horas da manhã, nós saíamos dos abrigos vivos e felizes por mais um dia de vida e íamos direto para os restaurantes para festejar.
Aos dezesseis anos conheci, em uma piscina, um gato loiro de olhos azuis que viria três anos mais tarde a ser meu marido e companheiro das aventuras que virão a acontecer. 
Em 1945 acabou a guerra e com isto os alemães que, junto com os romenos, lutaram contra a Rússia, foram embora e com isto o nosso terror em que vivíamos os últimos quatro anos com medo do campo de concentração, acabou. 
O povo romeno achou que, recebendo os russos com flores e música, teriam um futuro calmo e feliz. Não foi nada disto, ao contrário, vieram com muita raiva e sentimentos de vingança. Andavam atirando em pessoas na rua, sem motivo e sem escolha.
A parte cômica é que o exército deles vinha de quarenta anos de terrorismo e não sabiam nada do mundo. Desinformados, não sabiam nem como se vestir.
As russas loiras lindas tiravam o uniforme e se vestiam com longas camisolas de cetim, cheias de renda, para andar normalmente na rua.
Os estoques de sapatos de verniz preto com solas de papelão que eram vendidos normalmente para calçar os mortos, fizeram a festa dos soldados russos.
Nunca soube o que aconteceu na primeira chuva, nem o destino das lojas que os venderam.
Após algum tempo em que todos achavam que as coisas iriam se normalizar, começaram os verdadeiros problemas. 
Todos que na vida não eram operários ou que os pais trabalhavam como executivos ou coisa parecida eram considerados um perigo para o mundo socialista. 
Até que um dia um amigo nosso que tinha acesso a informações sigilosas nos telefonou avisando que era questão de dias para prender a minha família. Não eram propriamente processos aonde se podia se defender ou dar explicações. As sanções, acho eu, dependiam mais do humor dos que julgavam cada caso naquele dia.
 Fazendo um parêntese, no dia 18 de fevereiro de 1945 eu e meu amor finalmente e corajosamente resolvemos nos casar apesar das restrições como depois das 20:00 horas ser proibido andar na rua ou ter em casa mais de seis pessoas. Devia-se pedir uma autorização para eliminar o que eles achavam que poderia ser uma reunião com fins políticos.
 Era um inverno com frio terrível, não existiam carros a disposição. Então não me lembro como e quem, com altas relações políticas arrumou para nós, os noivos, um carro preto dirigido por um soldado russo. 
 Hoje me pergunto: A coragem que nós tivemos de entrar no tal do carrão, sem saber se nós iríamos à igreja ou ao cemitério. Pelo jeito era um russo bonzinho, senão quem escreveria todas estas lembranças?
 Fechando o parêntese, volto a outubro de 1947 depois do telefonema fatídico. Praticamente em vinte e quatro horas resolvemos deixar o país, coisa que era bastante comum na época,  entre pessoas que não possuíam um passado confiável com a atual conjuntura.
 Éramos casados a pouco mais de dois anos com o apartamentozinho aconchegadinho, bem arrumadinho e, como resultado, saímos pela porta cada um com uma maletinha pequena com uma muda de roupa e um sapato de reserva. Era tudo que se podia carregar na travessia da fronteira que era durante a noite e a pé pelos campos e sem saber se era durante duas ou dez horas.
 Procuramos em uma cidade perto da fronteira uma pessoa de confiança pois, devido a muita procura de gente que queria fugir, se criou uma turma de bandidos que, ao invés de atravessar, matavam as pessoas achando que tinham valores ou jóias pelo corpo.
 No fim tivemos sorte. Sorte esta paga com uma quantia considerável e, às duas horas da manhã do dia 2 de novembro de 1947, entramos, pelas próprias pernas e tropeçando em tudo que se podia através do campo no escuro como dizia, com as maletas na mão, na Hungria aonde pegamos um trem para ir à Budapeste.
Nós tínhamos um endereço seguro de uma pensão onde tinham mais refugiados como nós. Mas havia um certo perigo pois estávamos na zona russa e se descobrissem nossa identidade éramos mandados de volta sem explicações.
À primeira saída na rua, todos mudos com medo de falar romeno, paramos na frente de uma loja de “delicatessen”. Atrás de vitrine tinham dez tipos de presuntos e salames, fora os queijos, licores e vinhos; parecia o paraíso de um “gourmet”.
 E o cúmulo dos cúmulos foi uma loja aonde eu enxerguei uma coisa que na hora me pareceu uma jóia, um par de meias de “nylon” que, no momento, era o máximo que eu queria da vida. 
Do resto correu tudo normalmente e, na semana seguinte, organizaram nossa saída de Budapeste por uma associação que cuidava de refugiados chamados políticos. Passamos o resto dos dias cheirando e olhando coisas que pareciam de outro mundo.
Íamos para Viena na Áustria e, na noite fatídica do transporte, entramos em um caminhão e ficamos sentados no chão com a maletinha no colo e a lona do caminhão diretamente sobre nossas cabeças. 
Era um grupo muito grande que foi distribuído em três caminhões. Os dois primeiros passaram pelo ponto crítico sem problemas. O nosso foi parado, adivinhou aonde? Cochichando e espiando descobrimos com desespero que era na sede do partido comunista húngaro. 
Passamos por momentos de angústia sem saber o que o destino nos aprontava. 
Meu marido era do tipo que a preocupação o deixava com fome. Ele partiu um pedaço de pão preto duro, abriu uma lata de conserva e começou calmamente a comer. Do outro meu lado estava sentado um senhor lindo de cabelos brancos, todo nervoso com a situação e falou em voz baixa para o meu marido:
- Como nesta hora de desespero o senhor só pensa em comer?
Ao que meu marido respondeu, no mesmo tom de voz e com um olhar assassino:
- Se não calar a boca torço o seu pescoço.
 Este senhor Mário, que vou mencionar muitas vezes, veio a ser um dos nossos melhores amigos e fizemos praticamente toda a emigração juntos.
 Apesar de ter deixado na Romênia mulher e filho, acabou se envolvendo, entre outras aventuras tipo James Bond, com uma condessa italiana que jogou ele de cueca na rua, por o ter pego com outra pessoa.
No fim, libertaram nosso caminhão, pois estava nele um contrabandista que aproveitava e se juntava como refugiado, mas com uma lanterna super potente e, para nossa felicidade, reconheceram e tiraram-no da nossa companhia.
Quando falei da noite fatídica na saída de Budapeste, apesar de terem nos informado que estava tudo organizado com guardas de fronteira muito bem pagos para isto, a travessia foi feita por outro lugar e levou das 11:00 horas da noite até no dia seguinte às 10:00 horas da manhã. 
Quando chegamos à Viena, eu fui diretamente para um Pronto Socorro com um verdadeiro buraco no calcanhar. Imaginem quase doze horas de andar, em pleno campo, com os buracos, pedaços de árvores cortadas e muitas outras coisas para tropeçar.
Na época Viena era dividida em quatro setores: russo, americano, inglês e francês. Nós fomos colocados numa escola que tinha sido adaptada para abrigar bastante gente. Por sorte ou por azar, me deram uma cama de um beliche; aliás, todas as salas tinham beliches até o teto. Todo o dia de manhã, quando eu acordava, tinha balançando quase tocando minha cabeça um par de pés não muito bem lavados. 
Aliás, banhos em novembro, com frio, eram com água gelada. Eu, como sou friorenta por natureza, resolvi que o primeiro banho ia ser não sei e nem onde, mas com água fria não. 
Nossa escola era na zona americana mas alguém descobriu que na zona russa havia um verdadeiro palácio de banhos. 
De novo, mudos, saímos da escola rumo ao paraíso dos banhos onde ficamos o dia inteiro aproveitando os chuveiros e as piscinas com água quente. As necessidades de uma pessoa, dependendo do momento, criam uma situação de felicidade das coisas mais simples que normalmente passam desapercebidas no dia-a-dia.   
Falando em tragicômico, a saída de Viena para Salzburgo foi uma aventura única, até para quem viveu ela. Como sempre, um caminhão à noite nos deixou perto de uma estação de trem só que a estação estava embaixo e nós estávamos em cima de um morro. Não era o Everest, mas tinha bastante altura. Por sorte ou por azar, naquele dia não estava muito frio, de modo que a neve tinha derretido e se transformou num lençol de lama considerável. 
O morro, como todos os morros, estava cheio de árvores grandes, pequenas e muitos arbustos. Com toda nossa calma e energia tentamos descer pelas próprias pernas.  
Acabamos todos de traseiro no chão morrendo de rir. A conclusão foi que o único meio era continuar com a bunda no chão, escorregando na lama, em cima do casaco de camurça, com a bendita maletinha no colo. Quando tomávamos muita velocidade, o único meio de parar, era escolher uma árvore, abrir as pernas e procurar proteger as partes importantes.
Dá para imaginar a situação? 
Contudo isto e com a idade que a gente estava, até hoje me pergunto como cheguei lá em baixo, com a calcinha seca de tanto que a gente ria. 
Chegando na estação, achamos que o problema estava resolvido; faltava pegar o trem para Salzburgo. Naquela época, em qualquer lugar da Europa aonde tinha russos, quem como nós não tinha nenhuma identidade eram mandados de volta para a Romênia e premiados com vinte e cinco anos de prisão.   
A notícia na estação de trem era que passaríamos pelo controle dos soviéticos. Não me lembro como resolvemos a situação, só sei que chegamos livres ao destino. 
Com o último dinheirinho que tínhamos, fomos para um hotelzinho onde ficamos uma semana visitando obras e prédios históricos, aproveitando a beleza do lugar. 
Estava conosco o amigo Mário que mencionei anteriormente, aventureiro até o último dia. Às oito da noite quando chegou o guia que ia nos levar para a Alemanha, nosso companheiro foi comprar um maço de cigarros.
Encontramos com ele dois meses mais tarde em Paris. 
Naturalmente, como sempre, já acostumados a passar a fronteira a pé e pelos campos, não tivemos, por felicidade, nenhum contra-tempo. Sem o entusiasmo dos vinte e dois anos, aquilo que na época era um risco permanente, hoje com a maturidade, para não dizer idade, não deixa de ter um lado cômico.  
Chegamos a Munique de manhã e fomos encaminhados para um campo de refugiados onde passamos três meses esperando melhorar o frio em Paris que era nosso próximo destino e o final das aventuras. 
No  campo tinha uma cozinha; não vou ignorar a qualidade da comida, mas durante três meses comemos guisado com macarrão. Este era o almoço. O jantar era por nossa conta e lembramos o tempo todo o ditado que a fome é o melhor cozinheiro. 
Muitas semanas, por falta de dinheiro, fazíamos um belo sanduíche de pão preto duro com açúcar em cima. 
Não existe nada na vida mais importante do que o impulso e a juventude de ir para frente esperando, achar um dia, aquilo que nos fazia enfrentar aquela situação. 
Nos deram uma sala grande com oito camas. Eram sete homens e a Mioara. Apesar de tudo, foi uma época bem divertida. Os homens trouxeram para sala um piano de cauda e até hoje não sei como ninguém nos acusou de roubo. 
Um do grupo tocava jazz e o tempo passava de maneira bastante animada. 
No campo tinha um clube mantido pelos mais afortunados e uma noite nós fomos lá para ouvir música e ver a animação. Como ninguém de nós tinha dinheiro, aqui vou dar uma explicação. Na saída da Romênia se pegavam a gente com dinheiro eram vinte e cinco anos de prisão, de modo que nós levamos escondidas algumas jóias que tínhamos vendido pelo caminho. 
Voltando na noite no clube, os meninos pediram cada um uma cerveja. A tal da cerveja vinha num barril que dava para vários dias. O copo da cerveja foi negado por causa do vil metal. 
Na mesma noite, aliás, de madrugada, os meninos deram um jeito de entrar no clube e cada um fez xixi no barril. Na noite seguinte, naturalmente, os primeiros a entrarem no clube fomos nós para não perdermos os comentários ansiosamente esperados. Os primeiros a tomar acharam que tinha um gosto diferente e até cogitaram se não entregaram um barril velho. 
Estes momentos que para um leitor podem parecer sem graça até chocante, para nós que passávamos uma época muito difícil tinha um gostinho de vingança e ao mesmo tempo, uma injeção de esperança em dias melhores. 
Finalmente, chegou o mês de março e achando que o frio tinha acabado, começamos a procurar um meio de ir para a França. 
Apareceu um conhecido que fazia contrabando e prometendo levar para ele duas malas com a muamba, dizia conhecer a fronteira com a palma da mão. 
A travessia levou, pelo menos, quarenta e oito horas sendo que a primeira cidadezinha que chegamos na França, naturalmente e como sempre, a pé, cansados, com fome, sono e preocupados com a falta de conhecimento da fronteira do nosso conhecido. 
Entramos num pequeno restaurante da estação e os quatro desabamos em uma mesa. Com todo o cuidado de escolher uma época menos fria, naquelas noites estava muito gelado com neve na altura dos joelhos. Dentro do restaurante estava quentinho com um vago cheiro de perfume. 
Alguns minutos mais tarde chegou na nossa mesa um garçom com quatro canecas de “consommé”. Nós falamos que não tínhamos encomendado e que não tínhamos dinheiro para pagar. O garçom respondeu que pessoas de outra mesa tinham pedido aquilo para nós. 
Até hoje imagino nosso aspecto depois de passar frio, fome e sono. Foi o fato que impressionou uns estranhos a nos oferecerem uma sopinha quente que na hora nos pareceu enviada por Deus.
 A verdade é que aquele era um lugar aonde passavam muitos refugiados e aquele pessoal até hoje devem lembrar o que os motivou àquele gesto de caridade, posso dizer. Levantei e fui agradecer e, como uma pessoa muito forte que eu achava que era, voltei para minha mesa, botei a cabeça no braço e chorei, chorei e chorei. 
Pelas onze horas da noite, com toda a confiança e afirmativa de nosso amigo que a fronteira não tinha segredos para ele, paramos em um acampamento militar aonde tinha um cartaz enorme com ameaça de vida para quem entrasse lá.      
 O acampamento era perto de uma estação de trem, aonde a gente devia pegar a meia noite um trem para Paris. Procurando no escuro e com neve alta, esgotados e com medo pelas nossas vidas, vimos de longe o trem passar. 
Sair do campo estava se tornando um drama. Pelas duas horas da manhã, apareceu de longe um grupo de pessoas se aproximando. Mandei os três amigos se esconderem e comecei a chamar o grupo que ficou pasmo quando me viu sozinha de madrugada pedindo ajuda. Me fingi de bêbada dizendo que o acompanhante tinha me largado sozinha e procurando o caminho acabei entrando no campo. 
Meu francês é muito bom mas, pelo sotaque perceberam na hora que eu não era francesa. Como falei antes, aquele era um ponto onde eles sabiam que muitos refugiados passavam e me perguntaram na hora se a bebedeira não era uma desculpa. 
Assumi no mesmo momento e eles nos orientaram como sair do campo. 
As três da manhã chegamos na pequena estação que, naturalmente, estava fechada. Brincando, apesar de desespero, achamos que a solução era construir um iglu. Neve tinha em quantidade para levantar um edifício, mas Deus existe e de repente apareceu um guarda com as chaves. Abriu as portas para nós, acendeu um fogareiro e nos deitamos em uns bancos de madeira que na hora não teria trocado nem por uma cama de plumas.
 Nos virávamos o tempo todo porque o lado que não estava virado para o fogareiro ficava congelado. Foi uma noite memorável e às dez da manhã finalmente pegamos o trem para Paris. 
O trem estava repleto e eu nunca imaginei que podia dormir em pé. Encostei no meu marido, não sei por quanto tempo, até que uma pessoa muito gentil nos cedeu um lugar. Sentei no colo do Oscar e peguei no sono na mesma hora. 
A entrada em Paris para nós foi um triunfo maior do que a entrada do Napoleão. Eu, com o mesmo casaco que tinha escorregado na lama, tirei da maleta uns sapatos e, com as botas envoltas num jornal rasgado, entramos em um dos hotéis mais caros de Paris que pertencia a um parente meu. 
Os porteiros estavam avisados da nossa chegada e, muito solícitos, com um carrinho perguntaram pela nossa bagagem. Provavelmente eles devem ter achado que os parentes do dono eram de profissão mendigos ou alguma coisa parecida. Com toda razão depois de noites sem dormir, sem comer e todas as aventuras que contei, só podiam achar isto. 
Ficamos só um dia neste hotel por causa de nossa situação como refugiados. Íamos perder o apoio financeiro e logístico se soubessem que tínhamos parentes ricos na cidade. 
Pela primeira vez, em quatro meses, sem ter identidade fomos levados para a prefeitura aonde nos deram umas carteiras provisórias para ter direito a cupons de alimentação sendo que na época, a situação na França ainda era muito crítica.
Com o pouco dinheiro que eles davam, fomos para um hotelzinho num dos pontos mais famosos de Paris. Na frente do cemitério Père Lachaise aonde eram enterrados famosos como artistas, escritores e muitas outras personalidades. O hotel, como a maioria dos pequenos hotéis de Paris,  alugava quartos por hora para casais apaixonados. 
Pelos buracos das paredes, descobrimos que não havia tijolos; o forro era feito de uma espécie de palha que não era a prova de som. Obviamente a gente se divertia ouvindo os ais e uis vindos do quarto ao lado. 
Sem carteira de trabalho era difícil arrumar emprego e os dois meses que nós recebemos ajuda financeira passaram rápido. Meu marido arrumou um emprego numa loja de roupas para homem. 
Ele ficava num balcão em cima, aonde tinham pendurados, por cores e números, centenas de ternos. Os vendedores gritavam de baixo:
- “Me alcança um terno marrom esportivo número 52.”
Ele achava aquilo deprimente, mas a gente tinha um péssimo hábito que era o de comer quando se estava com fome. 
Eu, por meu lado, raspando os últimos francos, comprei uma máquina de costura de pedal dura no funcionar, descascada, mas costurava. Entre os refugiados corriam notícias de fábricas que davam lençóis ou guardanapos para fazer bainhas. Com um pouco mais de dinheiro nos mudamos para um hotel melhor, aonde tinha uma pequena cozinha e lá ficamos durante o resto da estadia em Paris. 
No meio de todos os problemas financeiros e morais apareceu nosso excêntrico amigo Mário com uma proposta que iria resolver todos os nossos problemas e nos deixar ricos em pouco tempo. Era para ele e meu marido serem espiões no Egito. Primeiro, achamos que era uma piada mas, maluco como ele era, falava sério. Eu achava que nenhum dos dois tinha aptidões tipo James Bond e, em vez de liberdade e dinheiro, íamos acabar, na melhor das hipóteses, numa prisão no Egito e esperar manter nossas cabeças no pescoço pois, sempre para a espionagem, o perdão vinha através de vinte atiradores e uma parede atrás da gente. 
Uma das aventuras mais improváveis de acontecer aconteceu comigo. Parentes nossos da Paris que antes da guerra, no mundo da música, tinham relações com altas personalidades inclusive ministros, me perguntaram se eu além de fazer bainhas em lençóis poderia fazer conserto nas roupas de uma ministra. Nesta altura, com as necessidades que nós passávamos no momento, eu teria afirmado que sabia até fazer safáris na África. 
Por conta da minha afirmação veemente sobre capacidade em costura me marcaram um dia para ir lá. Era uma personalidade muito importante, morava num palácio na zona mais chique de Paris, mas no momento estava viajando. Quem me recebeu foi uma governanta encantada com o fato de eu falar francês. Me fiz passar por momentos interessantes, divertidos e às vezes preocupantes. 
Na portaria da casa, me recebeu um porteiro com um uniforme de gala que acho que era uma cópia fiel com que Napoleão usava em momentos importantes. Voltando à governanta, tão encantada de conhecer uma romena fugida de um país comunista, me deu uma atenção excepcional. 
Primeiro, nada de fazer bainhas na roupa da ministra. Na mesma hora abriu uma lata de caviar, um champanhe, torradinhas enquanto eu tentava comentar a história da minha fuga. Depois do aperitivo, me levou  no closet da madame que era de um tamanho impressionante. Primeiro nós vimos os duzentos se não mais vestidos de todas as cores, grifes, tamanhos, etc. Depois abriu outras portas aonde estavam os casacos de pele, do bolero até o tornozelo, todos, naturalmente, das peles mais caras e raras. 
Neste momento, passei da euforia para um momento de pânico. Achei que só faltava abrir o cofre para me mostrar as jóias da família. Até pensei que, todo aquele fato de me mostrar roupas e peles, fosse uma preparação para o passo seguinte. Felizmente, nada mais aconteceu. Finalmente almoçamos com vinhos e, provavelmente, alguma coisa  com os famosos molhos franceses. 
Nesta altura já eram quase três horas da tarde e as bainhas estavam esperando. Ela me disse que sabia costurar muito bem e ia me ajudar e, de fato, às quatro horas estava tudo pronto e eu recebi uma bolada de dinheiro. Saí de lá me beliscando para saber se eu tinha sonhado com tudo aquilo.
O tempo estava passando e, como nossa intenção era sair da Europa, começamos a procurar países que admitiam pessoas com a origem duvidosa por conta do atual regime da Romênia. Nada disso era nossa culpa, mas era difícil provar, mesmo tendo deixado o país. O mundo achava que nós podíamos ser mandados para outros lugares com o intuito de, futuramente, virar informantes dos soviéticos. 
A primeira opção foi Austrália. Descartamos logo pois nossa esperança era de um dia reencontrar nossos pais e achando que geograficamente sendo muito longe a distância, seria um impedimento. A segunda opção foi Canadá. Maravilhoso, diriam todos vocês, só tinha um pequeno senão: os primeiros dois anos ficaríamos no extremo norte do país para meu marido que tinha o biótipo adequando para cortar árvores de grande porte. Eu, que sempre fui uma grande friorenta, fiquei gelada só de me imaginar morando numa cabana de madeira, óbvio, com um fogão a lenha, uma chaleira com água quente esperando a volta do marido cansado, com calos na mão por falta de prática, sendo que ele era um universitário de família abastada. 
Abortamos Canadá e ficamos esperando outras chances. De repente, um calafrio positivo no pequeno grupo de romenos em Paris: o Brasil abriu as portas para imigrantes. No dia seguinte estávamos lá e, por muita sorte, a secretária era filha de um adjunto que tinha estado na Romênia em certa época. Isto gerou uma onda de simpatia e, com o máximo de gentileza, procuramos juntos o que o Brasil mais precisava na época. 
Na realidade a classe A não interessava; necessitavam de mão de obra especializada em vários setores. Olhando na lista vimos que eram necessários aqueles que entendiam de couros. Nos prontificamos na hora de trazer papéis que comprovassem nossas especialidades. Num dos grandes hotéis de Paris, em um banheiro muito chique, tinha alguém que fornecia todo o tipo de diploma, acho que conseguiria provar até que meu marido podia ser indicado para um prêmio Nobel. Ele arrumou um atestado de como Oscar tinha grande experiência como curtidor de couro, o que era muito procurado no Brasil. 
Eu, por meu lado, era uma técnica em segredos de lavanderia. Como tirar manchas especiais e em produtos de lavar a seco. 
Assim nós conseguimos nossos vistos e começamos a procurar o melhor modo de chegar no Brasil. Não havia muita escolha. No final, quem organizou e pagou nossas passagens foram os mesmos que coordenavam os transportes dos assim chamados, refugiados políticos. 
Num belo dia de março, nos comunicaram que íamos para Marselha embarcar num transatlântico que era mais para barco do que o título pomposo de trans. Chamava-se Campana e era a última viagem, acho que, na volta para França, iriam botá-lo em um ferro velho, amassar e vender para fazer latinhas de Coca Cola. 
Nossa cabine particular era para nós dois e mais trezentas pessoas na primeira classe, começando do fundo do navio. Depois de ver nossos beliches não precisamos mais do que cinco minutos para decidir passaríamos os próximos nove dias que levava a viagem no convés olhando as ondas do mar de dia e as estrelas à noite. 
Durante toda a viagem o almoço era macarrão com guisado coisa que até hoje me lembra a minha falta de entusiasmo na hora que tocava o sino para comer. Meu marido que adorava massa, saiu de Marselha com oitenta e dois quilos e chegou ao Rio com noventa quilos. 
A hora do banho foi uma das coisas que mais me divertiu, se posso chamar assim. Havia muitos camponeses espanhóis que, traziam junto, um século de atraso. Eu e mais cinco romenas, imigrantes mas de classe alta, na hora do banho que era privativo para dez pessoas, sem pensar muito, tiramos as roupas e, lógico, nuazinhas fomos para os no chuveiros. As camponesas, com os mesmos vestidos pretos até os tornozelos que embarcaram, tinham na mão um pano molhado e ensaboado que, por baixo da roupa lavavam provavelmente até onde a mão alcançava. 
Ficamos sabendo mais tarde, por uma pessoa que nos contou rindo, que elas achavam que nós as romenas na realidade éramos prostitutas em viagem para o Brasil para exercer nossa atividade rotineira. 
Assim e assado, passamos os nove dias. Não posso esquecer a parada na África, uma noite de calor infernal, que nós todos achamos que iríamos ver um pouco de civilização. Não sei como os outros barcos foram recebidos. Faltou entusiasmo, faltou gente e nós, apesar de estarmos acostumados a atravessar os campos à noite, como não vimos nem um cachorro, até um leão, nesta altura, seria bem vindo. 
Fiquei me perguntando se aquilo era a realidade ou a nossa imaginação tinha criado aquele vazio deprimente. 
Em compensação a chegada no Rio foi emocionante. Com todo nosso medo do que o futuro nos reservava, a vista do Rio à meia noite, com as luzinhas maravilhosas da cidade. A baía era um sonho que tornaria realidade todas nossas aventuras para chegarmos a momento.
O navio devia estar em melhores condições do que eu pensava pois, apesar de todo mundo num lado da ponte, ele resistiu e não virou, como anos mais tarde, durante o Reveillon, aconteceu aquela tragédia.
Era este o momento que representava um começo de vida, quase um renascimento.                  
 Foi a última noite a dormir no convés e, no dia seguinte, não me lembro a data exata, em março, amigos dos meus pais nos esperavam no cais. Eles tinham saído da Romênia bastante tempo atrás pois tinham um tio rico e muito bem relacionado no Rio. Me lembro que um dos amigos íntimos era JK.
Depois dos abraços e um pouco de lágrimas da parte feminina, a organização nos botou nuns táxis. Éramos ao todo quinze romenos entre mulheres e homens. Fomos para um hotelzinho na Lapa que era vizinho de um Pronto Socorro aonde a cada cinco minutos chegava ou saia uma ambulância e a sirene era exatamente o mesmo som que durante os bombardeios anunciava a chegada dos aviões em cima de Bucareste. Ao ouvir aquele som me transportei psicologicamente na época e que na hora de ouvir a sirene a gente pulava da cama para correr nos abrigos. Tive uma conversa muito séria comigo e me falei: Você está no Rio de Janeiro, milhares de quilômetros longe da guerra. Assim mesmo custei a me convencer até que nós e mais um casal imploramos ao dono do hotel para nos alojar na outra ala para ficar um pouco mais longe das ambulâncias.
Intimidades dos casais ficaram para um futuro próximo pois durante a travessia do Atlântico, meio que nós tínhamos uma vaga lembrança que uma vez na vida existia um quarto, com uma cama no escuro, sem gente à nossa volta.
Apesar de nossa juventude talvez o fato de falar outras línguas tenha nos atrapalhado um pouco e nos fazer entender pelos outros se tornou um problema muito sério. Uma das primeiras frases que eu aprendi era quando alguém me dizia alguma coisa que eu não entendia, repetiam gritando achando que eu era surda, aos quais eu respondia: “eu sou estrangeira e não surda”. Na hora me dava um pequeno desespero mas, como eu escrevi antes, em poucos meses tudo entrou no normal.
 Tivemos que reaprender a falar quase como os bebês que aprendem todo dia uma palavra nova.
Eram novos hábitos, mentalidade diferente. Tínhamos que esquecer aquilo que achávamos adequado durante os primeiros vinte e dois anos e pensar e agir nos adaptando a viver num país jovem, sem as regras às vezes rígidas de uma Europa com milhares de anos de passado. 
Por sorte nós, o casal, éramos pessoas muito flexíveis e depois das aventuras da travessia, achamos aqui o paraíso. Calor, muita gente jovem e bonita, frutas tropicais e carnaval. 
Mais que isto seria exagerar, querer demais da vida.
 Ficamos um mês no hotel pago pela organização. Neste meio tempo aconteceram coisas mais que cômicas como por exemplo: 
Na primeira noite do hotel na Lapa, eu e meu Oscar, entramos numa lanchonete e, na linguagem universal do dedo, apontando, pedimos dois iogurtes. 
Eu sempre achava que vivendo num país a primeira coisa é procurar aprender, quanto mais rápido possível, a língua. 
Me baseando no fato de meus pais de origem espanhola falavam as vezes em casa numa língua chamada sefaradi, muito parecida com o português, sendo língua latina. 
Perguntei na expectativa que o garçom ia entender minha pergunta:
- Como se chama isto? Ele prontamente respondeu:
- Mais.
Na hora eu achei que iogurte, em português, se chamava mais. Meu marido querendo simplificar as coisas levantou quatro dedos pois nós tínhamos convidado o casal com quem compartilháramos o quarto e pediu em voz alta e clara:
- Quatro mais.    
O garçom que era o mesmo da outra noite prontamente perguntou:
- Mais café, mais coca cola e mais não sei o que. O dono da lanchonete, um português bem vivo, deve ter se dado conta da expressão do garçom pois chegou na nossa mesa, pegou meu marido pela mão e levou até o balcão ande perguntou:
- O que? 
Meu marido apontou e o dono falou: Isto se chama iogurte. Quando Oscar chegou na mesa rindo e contou o nome que em romeno se chama iaurt chegamos a conclusão que toda vez que queríamos alguma coisa nós devíamos tentar primeiro em romeno. 
A base de muitas risadas, aprendemos aos poucos que nem tudo que nós achávamos ser a palavra certa era certa mesmo. 
Por exemplo: Cada vez que alguém espirrava, eu feliz, desejava em voz bem alta e clara saudade. Nunca entendi porque as pessoas em vez de dizer obrigado davam uma risada e com toda boa vontade explicaram que a palavra era saúde e não nostalgia por alguma coisa do passado. 
Como eu nunca na vida me sentia perseguida ou coisa parecida, levava tudo na brincadeira procurando falar errado com todos os erros que eu fazia, mas falar. Tanto que no mesmo ano, em setembro, já podia me fazer entender e assimilar cada vez mais palavras novas. 
Posso dizer que na época a Seleções foi uma espécie de aula para mim. Deduzindo por algumas palavras que eu conhecia, aprendia trechos inteiros de cada vez. O melhor curso de línguas é o que eu chamo de a escola da vida. 
Aventuras como a história do iogurte aconteciam o tempo todo; podia dedicar um livro inteiro a situações uma mais cômica que a outra. Mas vamos correr um pouco no tempo pois a paciência dos meus leitores pode se esgotar.
Vou contar nosso começo no Rio.
Na vida, o papel dos amigos pode ter uma importância muito grande.
Mencionei antes que amigos dos meus pais, aqueles que nos receberam no porto, estavam numa situação econômica bem boa. Eles abriram os braços procurando nos orientar com os hábitos e sistema de vida no Brasil.
Achamos um pequeno apartamento que um casal, que queria voltar para a Alemanha, nos passou um bom contrato por U$ 1000,00 que nossos bons amigos nos emprestaram lembrando que juntos e por causa do meu pai, ganhavam muito bem em Bucareste. Acabaram nunca pedindo o dinheiro de volta. Para nós, na época, U$ 1000,00 representava uma fortuna que a gente custou a ganhar. 
O apartamento era em Ipanema, que viria ser mais tarde, um dos melhores bairros do Rio. Tinha no apartamento que se chamava mobiliado uma cama turca que caía quando a gente sentava.  Faltava um pé, um colchão inadequado mas para quem dormiu até em banco de madeira, não deixava de ser um colchão. Tinha uma armário pequeno, uma mesa e duas cadeiras. Mas tinha a coisa que mais importava no momento: uma geladeira e um fogão. 
Em princípio podia começar a cozinhar no dia seguinte, se não houvesse um grande impedimento. Tudo o que a gente tinha trazido de Paris eram dois garfos e duas facas e duvido que tinha alguma colher. 
O casal alemão tinha levado tudo que podia; não tinha nada na cozinha. 
Sem pensar muito, acostumada na Romênia a ter tudo que precisava, convidei nosso casal de amigos e o tio amigo íntimo de JK para jantar. 
Na manhã do dia seguinte, caiu a ficha como se diz. Quando me dei conta que não tinha toalha, nem pratos e o resto, minha primeira reação foi sentar na cama e chorar. Mas como futura gaúcha valente que viria a ser vinte anos mais tarde, me endureci e falei comigo mesma: - Coragem, você é a mesma pessoa que sempre foi com pratos ou não. 
Fui à luta em seguida. No térreo do nosso edifício, tinha uma loja de tecidos de um turco muito gentil. Nas vinte palavras que era todo o meu vocabulário na época, pedi para ele me dar o tecido branco mais barato que tinha na loja.
Pensando nas toalhas de linho bordadas que deixei na Romênia, comprei um tecido de lençóis que foi a primeira grande compra que eu fiz no Rio. Mais cinco pratos baratinhos mas bonitinhos, cinco copos, mais três talheres, botei flores na mesa e recebi eles como se aquele jantar fosse uma coisa comum na minha vida. 
Aos pouquinhos e com muito trabalho começamos a complementar as coisas necessárias. Meu marido tinha começado a trabalhar logo e eu vou contar mais tarde o que umas aulas de costura que eu tinha feito com dezesseis anos representaram na minha vida. 
Primeiro vou relatar que depois de uma semana de trabalho, todos os sábados de tarde íamos na praia do Arpoador que era bem perto da nossa casa. Animados por ver gente pescando arrumamos não sei de onde, um pau comprido com um barbante na ponta e como isca, pedacinhos de carne. Fomos nós, os dois patetas, numa tarde linda pescar com o pau e a sacolinha de carne nas famosas pedras do Arpoador. 
Mal nos acomodamos e jogamos a isca começamos a ouvir gritos vindos da rua da praia e, provavelmente, também do nosso Santo protetor. Era hora da maré em que começavam a vir grandes ondas que praticamente varriam tudo que estava em cima das pedras. 
Pelo tamanho da gritaria e gesticulação das pessoas ficamos nos perguntando qual era a lei que estávamos infringindo. Descemos e meia hora mais tarde assistimos ao magnífico espetáculo das ondas gigantes cobrindo as pedras. Era de fato uma coisa maravilhosa de se ver e por sorte nós saímos a tempo de lá.                              
Um ano depois, tivemos a felicidade de trazer ao Brasil nossos pais que se adaptaram muito bem apesar da idade e da situação monetária da família que era das mais críticas. Mas acho que o otimismo era genético pois senão como explicar que eles só viam as coisas boas da situação. Mais um ano ou dois começamos a pensar em filhos que chegaram pouco depois com intervalo de mais ou menos dois anos. Foram filhos maravilhosos. Nos mudamos no primeiro ano para o Leblon, compramos móveis, carro, e entramos numa vida mais perto do que vínhamos sonhando há anos. 
Os últimos quinze anos moramos de novo perto do Arpoador e perto da praça General Osório aonde meus filhos passaram grande parte da infância. No ano de 1970 meu marido foi nomeado diretor de uma fábrica no RS e nos mudamos para cá com toda a tralha e um monte de lembranças boas.
Começamos a fazer amizades aqui. A nossa história da vida interessava muito e sempre às pessoas. Depois de cinco minutos de conversa vinha e, até hoje, as perguntas são as seguintes: Qual é a sua origem? Quando e porque vieram para o Brasil? Em que ano? E assim por diante. Estou acostumada a concentrar nossa história se não vocês que leram meu livro imaginam as horas que duraria contar a metade das aventuras. 
Uma coisa divertida que eu preciso contar dado ao fato que entre Rio e POA, apesar da distância não ser tão grande, os sentidos das palavras criam situações realmente cômicas. Uma das primeiras que não esqueço, é um dia procurando por um anel que eu não achava, perguntei a moça que trabalhava conosco se ela não tinha visto o tal. Me respondeu na hora que estava no bidezinho. Meio admirada fui para o banheiro, olhei no bidê que teria sido o último lugar aonde eu colocaria o anel. 
Voltei dizendo para ela que não achei e na hora me levou para o meu quarto e, no que eu chamo mesinha de cabeceira, estava o meu procurado anel. Vai adivinhar e como que em POA mesinha é bidezinho. 
Outra que vale a pena contar é uma amiga nos convidou num sábado a noite para jogar cartas e, ao mesmo tempo, me contou toda animada que tinham comprado de manhã um terno de veludo vermelho. Pensei na hora, no aspecto do marido que era bastante jovem e bem apessoado mas assim mesmo não conseguia imaginá-lo vestido de veludo vermelho. 
De noite, na hora de entrar no apartamento, a primeira coisa que ela fez foi nos levar para a sala e mostrar orgulhosamente o conjunto de sofá e poltronas, adivinhe logo a cor e tecido dos móveis. Na hora tive um ataque de riso e contei para ela a imagem que eu tinha feito do marido dela em traje de gala. 
Coisas assim aconteceram o tempo todo. Como eu que gostava da tal carne chamada maminha de alcatra, assim que cheguei a POA, na primeira ida ao supermercado, pedi com toda a naturalidade a maminha. Me responderam que não conheciam tal carne, eu tentei explicar até por gestos que o formato da maminha parecia um triângulo. Não sei direito se ele sabia o que era um triângulo, pois continuou me dizendo que não conhecia nem de nome. A coisa se repetiu durante um ano eu pedindo e eles me respondendo que aqui se cortava a carne diferente e que devia ter outro nome. Comecei a perguntar à todo mundo até que uma amiga me disse que aqui chamavam de chapéu de bispo. Ninguém acredita hoje quando eu conto, mas juro que é verdade. Fui correndo no super e desta vez esperando que vão me atender sem problemas pedi 1kg e meio do chapéu de tal. O rapaz muito gentil me disse: - A senhora sabe que muita gente chama isto de maminha de alcatra? Ele deve lembrar da minha cara até hoje, tal foi minha expressão de espanto e ao mesmo tempo de contentamento. 
A outra coisa que me persegue até hoje é quando entro numa padaria e peço cinco pãozinhos, não consigo dizer a palavra que todos conhecem aqui. 
Olhando para trás me dou conta que na vida não somos nós que fazemos as coisas acontecer. Tudo já é predestinado, acontecem uma após as outras para o bem e às vezes não tão bem. 
 Agradeço ao meu destino que sempre me guiou da melhor maneira, tanto que me botaram no caminho daquele que foi meu companheiro, amor e apoio em todos os momentos. A nossa vinda para o Brasil não foi propriamente nossa escolha pois como escrevi, recusamos outros países para no fundo aparecer o Brasil que nós decidimos que seria bom para nós. 
Sempre considerei que alguém que sabia de tudo, que viria no futuro, nos guiou indiretamente para cá. Aqui realizamos nossos sonhos, trabalhando muito e, às vezes duramente para isto, mas a gente não recebe nada de graça neste mundo; tem que fazer por merecer. 
Ajeitamos nossa vida aqui. Deus nos deu tudo que uma pessoa quer neste mundo. Me deu um companheiro para todos os momentos, me fez mãe, avó de quatro netos lindos das minhas noras gaúchas e, a maior benção que eu poderia pedir, ter a felicidade de ter dois bisnetos. 
Estou cansada de afirmar para todos que se queixam de pequenos problemas que nesta idade ficar de pé e respirar já é muito, o resto são presentes da vida e quem não se der conta disto perde o prazer de apreciar um céu azul, as árvores lindas e muitos motoristas gentis que param o carro e acenam para a gente atravessar a rua. 
Os bons amigos que valem tanto quanto os parentes e aos quais eu agradeço o impulso pelo interesse que mostraram pela história da minha vida que nunca me pareceu tão empolgante como eles me fizeram acreditar. 
Dedico este livro a todas as pessoas que me amam, a quem eu também amo.
A vida é linda.
Valeu a pena cada momento. 

Termino desenhando uma flor e dizendo paz e amor.

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